Sudão pinta aviões com cores da ONU para bombardear aldeias em Darfur

18.04.2007 - 14:38 Por PUBLICO.PT
O Governo sudanês estará a camuflar aviões militares com as cores da Nações Unidas para bombardear a região de Darfur, revela um relatório confidencial a que o jornal "New York Times" teve acesso.
Um dos casos relatados é acompanhado de fotografias, nas quais surge um avião militar sudanês, pintado de branco (a cor usada pelos aparelhos da ONU) e com as letras UN pintadas numa das asas, adianta o jornal, que disponibiliza na sua edição online uma dessas imagens. Ao lado do aparelho — estacionado na placa de um aeroporto na região de Darfur —, soldados sudaneses montam guarda a munições.
De acordo com o relatório, ao contrário do que afirma o Governo sudanês, os aviões estão a partir dos três aeroportos da região para missões de vigilância e bombardeamentos a aldeias.
Os aviões estarão também a ser usados para transportar equipamento militar pesado para a região, em violação das resoluções aprovadas pelo Conselho de Segurança sobre Darfur, palco há quatro anos de uma violenta guerra civil.
O "New York Times" adianta que o relatório, elaborado por um grupo de peritos que acompanham o cumprimento das resoluções, foi entregue pelo representante de um dos 15 países com assento no Conselho de Segurança, para quem as informações agora apuradas devem ser do conhecimento público.
Apesar de o Exército sudanês ser o principal alvo do relatório, os seus autores adiantam que também os grupos rebeldes activos na região violam as resoluções do Conselho de Segurança, os acordos de paz firmados com o Governo e as regras humanitárias.
Perante esta situação, os peritos pedem ao Conselho de Segurança que reforce o embargo à venda de armas a todos os agentes envolvidos no conflito.
Três anos de conflito
Mais de 300 mil pessoas terão morrido e mais de dois milhões foram obrigadas a abandonar as suas casas em consequência da guerra civil que devasta a região há mais de quatro anos. Os combates, iniciados em Fevereiro de 2003, opõem grupos rebeldes (que dizem lutar pelos direitos da população negra local) ao Governo islâmico de Cartum. Em resposta à insurreição, o Exército armou as tribos nómadas locais, há anos em conflito com os agricultores negros da região e agora responsabilizadas por ataques indiscriminados contra várias aldeias.
O Governo sudanês e a principal facção do SLA assinaram em Maio do ano passado um acordo de paz que prevê o fim da violência na região, o desarmamento das milícias árabes, a integração dos rebeldes nas Forças Armadas e a constituição de uma força de manutenção de paz.
Contudo, o documento não chegou a ser ratificado pela facção minoritária do SLA e pelo Movimento para a Justiça e Igualdade, minando as hipóteses de concretização da paz.
Segundo um relatório divulgado em Setembro de 2006 pelo Alto Comissariado dos Direitos Humanos da ONU, o acordo foi insuficiente para pôr fim à violência em Darfur e "está destinado ao fracasso" se Cartum não apoiar mais a região, já que "a população continua a ser alvo de graves violações dos direitos humanos, enquanto persiste a violência entre os diferentes grupos armados de Darfur".
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