John Allen Muhammad, o sniper que matou dez pessoas na cidade de Washington e nos estados de Maryland e Virgínia ao longo de três semanas em 2002, foi executado esta madrugada (hora portuguesa), por injecção letal, na prisão de Greensville, na Virgínia.
"A morte foi declarada às 21h11 locais [02h11 em Portugal]. Não houve complicações. Foi perguntado ao senhor Muhammad se queria proferir alguma declaração. Ele não assentiu nem disse nada", anunciou o porta-voz das instituições prisionais do estado da Virgínia, Larry Traylor, citado pela Reuters. "As coisas correram de forma normal", acrescentou.
Três jornalistas que testemunharam a execução descreveram um John Allen Muhammad barbeado e resignado, que não protestou quando o amarraram à marquesa e lhe começaram a administrar a injecção letal.
Paul Ebert, o procurador da Virgínia que conseguiu que Muhammad fosse condenado à pena de morte, esteve igualmente presente durante a execução. "Ele morreu de forma muito pacífica, ao contrário das suas vítimas. Senti que esta história teve um fim e espero que os familiares também o tenham sentido", disse Ebert aos jornalistas presentes.
Muhammad foi condenado pelo homicídio em primeiro grau de Dean Harold Meyers, uma das dez vítimas dos ataques em série. A execução ocorre sete anos após o crime, um período curto para o que é habitual nos Estados Unidos, onde um condenado à pena capital passa, em média, doze anos no corredor da morte.
Apesar de Muhammad ter pedido clemência ao governador democrata do estado da Virgínia, Timothy Kaine, alegando perturbações mentais, este acabou por rejeitar o apelo.
À época dos crimes, John Allen Muhammad teve um cúmplice: Lee Boyd Malvo, então com 17 anos, que foi condenado a prisão perpétua.
Até hoje permanecem em mistério as razões que levaram Muhammad e Lee Malvo a lançarem-se numa série de assassinatos que manteve a região de Washington mergulhada em terror entre 3 e 22 de Outubro de 2002. Dissimulados no porta-bagagens de um Chevrolet Caprice, alvejaram 13 pessoas, das quais apenas três sobreviveram aos ataques, que à data deixaram a polícia a mãos com uma investigação difícil: as vítimas nada tinham em comum - homens, mulheres, crianças, brancos e negros - e eram alvejadas nos locais mais diferentes, desde o exterior de centros comerciais a escolas e postos de gasolina. Uma das pessoas foi morta em Washington, seis em Maryland e três na Virgínia.
O bom soldado que se transformou num mau cidadão
Em meados da década de 1980, nada fazia prever que John Allen Muhammad viesse a ser um dos inimigos públicos da América. Em 1985 alistou-se no Exército e especializou-se em mecânica. Depois de servir o seu país na primeira Guerra do Golfo, obteve o Expert Rifleman's Badge, uma honra que o Exército americano reserva para os seus melhores soldados rasos. O título foi atribuído, quase de forma premonitória, pela sua destreza no manejo de armas e respectiva pontaria.
Em 1994, já depois de ter passado pelo Iraque, Muhammad licenciou-se no Exército e obteve o grau de sargento.
A História volta a apanhá-lo após os ataques de 11 de Setembro de 2001, numa altura em que atravessava um período pessoal muito conturbado. Estava em processo de divórcio (o segundo) e muitas vezes retinha os filhos junto a si, violando as normas decretadas por um juiz e obrigando a polícia a intervir.
Apesar de este ser o motivo central dos seus assassinatos - a sua ex-mulher disse repetidas vezes que Muhammad começou a matar para criar uma manobra de diversão que ajudasse a explicar a posterior morte dela, o objectivo último do atirador -, não se podem afastar as motivações políticas.
Depois do seu primeiro divórcio, que também acabou de forma conturbada, converteu-se ao Islão, adoptando o nome de Muhammad. Alguns anos depois ingressaria na Nação do Islão, o grupo liderado pelo polémico afro-americano Louis Farrakhan, acusado frequentemente de racismo e apelo ao ódio.


