O Parlamento sérvio aprovou uma resolução pedindo desculpas formais pela morte de milhares de bósnios muçulmanos em Srebrenica, em 1995, o mais atroz massacre na Europa desde a II Guerra Mundial.
A resolução – aprovada ao fim de um debate transmitido pela televisão, que durou quase 13 horas, até para lá da meia-noite – expressa pesar pelas vítimas e pede desculpa por não ter sido feito “o suficiente” para impedir o massacre. Não foi tão longe, porém, em reconhecer as mortes de Srebrenica, como um genocídio, num processo que espelhou com clareza a forma como o país permanece dividido em relação ao seu passado recente de guerra.
As forças bósnias-sérvias lideradas pelo general Ratko Mladic – que permanece em fuga, apesar de ser acusado de crimes de guerra – mataram mais de oito mil homens e rapazes bósnios muçulmanos, depois de terem assumido o controlo do território do enclave, então sob protecção das Nações Unidas.
“Estamos a dar o passo civilizado de pessoas politicamente responsáveis, sustentado numa convicção política, em relação ao crime de guerra que ocorreu em Srebrenica”, afirmou o líder dos socialistas, Branko Ruzic, cujo partido fora chefiado por Slobodan Milosevic durante a década de 1990.
A importância da captura de Mladic
A coligação no poder, de socialistas e democratas pró-ocidentais, espera que esta medida faça cair a Sérvia nas boas graças da União Europeia (UE), assim como captar a boa vontade e interesse dos investidores estrangeiros. Belgrado candidatou-se à UE em Dezembro passado, tendo sido desde logo apontado que é esperado das autoridades sérvias que capturem Mladic e o enviem para o Tribunal Penal Internacional, em Haia, antes mesmo de ser dado arranque a quaisquer negociações de adesão europeia.
Mas um diplomata ocidental, ouvido sob anonimato pela agência britânica Reuters, sublinhou que adoptar esta resolução sem prender Mladic – que se julga permanecer escondido na Sérvia – tem, na verdade, pouco significado: “Como gesto de substituição é até ofensivo. Mas se surge para ser acompanhado por um passo legal já é significativo. Se eles pensam que podem deixar Mladic continuar livre por mais uns 15 anos, então estamos perante uma gravíssima injustiça”.
Para alguns dos deputados, a aprovação desta resolução é “injusta” por ignorar os crimes de guerra cometidos contra os sérvios. “O crime [de Srebrenica] não foi maior do que os que aconteceram em outros lados”, apontou Velimir Ilic, da oposição, exemplificando com as ofensivas croatas contra os sérvios durante a guerra da ex-Jugoslávia. Outros, como o liberal Cedomir Jovanovic, insurgem-se por o pedido de desculpas aprovado no Parlamento não ter usado o termo genocídio para descrever a atrocidade cometida em Srebrenica.



