Segurança máxima nos 60 anos da China que Mao criou

01.10.2009 - 09:49 Por Francisca Gorjão Henriques
Hoje é dia de festa na China. A República Popular faz 60 anos. Não haverá só flores e decorações espampanantes. Pequim será uma capital fortemente armada, para a mais poderosa parada militar de sempre. E será microscopicamente vigiada, com mais de um milhão de pessoas na rua a controlar qualquer gesto suspeito.
Os preparativos começaram há quase um ano. Vários observadores afirmam que o regime fez tudo para superar a festa dos Jogos Olímpicos de 2008, que pretendiam consagrar a China como potência aos olhos do mundo e dos próprios chineses.
Algumas avenidas foram alargadas para deixar passar todas as provas de que o país pode realmente fazer frente a qualquer Estado após anos sucessivos de aumento de dois dígitos nos gastos militares: tanques, mísseis, sofisticados radares... Estarão aos olhos de todos 52 novos tipos de sistemas bélicos made in China, afirmou à Xinhua o general Fang Fenghui, responsável pela parada. “Eles corporizam a transformação por que passa o Exército de Libertação Popular... e mostram a sua capacidade para diversas missões militares.”
Esta manifestação de força ocupará a Praça Tiananmen, onde a 1 de Outubro de 1949 um vitorioso Mao Tsetung proclamava a República Popular da China (RPC), depois de derrotar as forças nacionalistas numa traumática guerra civil. Mao colocou-se frente à Cidade Proibida, um símbolo imperial, para dizer: “O povo chinês voltou a erguer-se.”
O país unia-se então, pela primeira vez em muitas décadas, pela mão de um líder. E fazia-o com a confiança de que afastara os tempos de humilhação da ocupação estrangeira.
O nacionalismo não estava de todo afastado da postura de Mao. Mas com o tempo “foi posto na prateleira” a favor da ideologia comunista, afirma ao PÚBLICO Moisés da Silva Fernandes, director do Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa. “No período maoísta, o que dita a política interna e externa do PCC são razões de ordem ideológica... Quando a União Soviética desistiu de fazer uma revolução mundial contra o Ocidente, [os membros do regime chinês] passaram a considerar-se os verdadeiros herdeiros de Estaline.”
O retrato de Mao, cuja morte em 1976 levou à abertura da China, ainda está em Tiananmen. Mas como refere o jornalista Francesco Sisci, num artigo no Asia Times Online, todos os anos ele é reduzido em alguns centímetros. Também está nas notas de yuan; mas os seus pensamentos não são ensinados nas universidades com a mesma ortodoxia.
Regresso do nacionalismo
“Depois de 1979, quando Deng Xiaoping toma o controlo, [a China] vai em sentido oposto. Abandona-se toda a carga ideológica para acordos com os Estados Unidos e reformas económicas. O que fez o PCC para compensar o desaparecimento da ideologia? Foi buscar o nacionalismo.”
E é isso que ajuda a explicar todo o aparato que hoje se vive em Pequim e muitas outras cidades do país. Celebrar os 60 anos da RPC é mostrar aos chineses o longo caminho que percorreram para se tornarem na terceira economia mundial.
Mas o controlo que o partido único ainda exerce faz-se particularmente sentir em dias como este.
Os habitantes da capital receberam avisos para armazenar comida, porque não seria fácil saírem de casa com este aniversário à porta – e não por haver demasiada gente na rua.
A Reuters fez a lista das “recomendações”, emitidas a um ritmo diário para “garantir o desenrolar suave das celebrações do Dia Nacional”. Umas entendem-se melhor que outras: proibido enviar pelo correio líquidos, pós, sabão e pasta-de-dentes. Não há voos privados de turistas. Os donos de pombos têm de os trancar nas gaiolas. Hoje, quem tiver casas viradas para a Praça Tiananmen ou outro ponto de passagem do desfile, está proibido de abrir a janela ou ir à varanda. Os hotéis ficaram impedidos de alugar os quartos virados para a Avenida Changan, a principal artéria por onde o desfile irá passar.
E não é tudo quanto a restrições. Quem vive perto do centro recebeu ordens para não ter convidados em casa neste período e armazenar comida para o caso de não poder sair à rua. “Por favor, reduzam as vossas saídas o máximo que conseguirem”, escreveu a polícia numa recomendação dirigida a turistas.
“Guerra popular”

