"Se a rádio diz é porque é verdade" e o Haiti confia na Rádio Caraíbas

20.01.2010 - 08:32 Por Paulo Moura, em Port au Prince
Num país onde os rumores têm uma força avassaladora, a lendária estação sempre foi uma fonte de confiança dos haitianos. Hoje, está a dizer aos seus ouvintes como se devem organizar para saírem do caos.
Metade do edifício ruiu e a outra metade pode ruir a qualquer momento. Mas a antena, esse centro nervoso de todo o sistema, esse órgão essencial, simultaneamente boca e coração da Rádio Caraíbas, essa, ficou intacta. Só era preciso isso. O resto reconstituiu-se em poucos dias.
A Rádio Caraíbas existe há mais de 60 anos. É uma rádio lendária no Haiti. Passa música, notícias e programas de diálogo com os ouvintes. É a mais ouvida e aquela em que as pessoas confiam. "Se dizem na rádio é porque é verdade", explica Israel Jacky Cantave, jornalista e um dos directores. Num país onde os rumores têm uma força avassaladora, as pessoas precisam de uma fonte de confiança. É a rádio. E, acima de todas, a Rádio Caraíbas.
Quando o terramoto destruiu as instalações, inutilizou os estúdios e todo o material, a equipa sentiu que era o fim de uma era. Talvez a sua rádio nunca mais viesse a emitir. Mas quando perceberam que a antena principal estava intacta, jornalistas e editores sabiam o que tinham a fazer, e não perderam tempo.
Arranjaram um velho jipe, microfones, dois computadores portáteis e alguns cabos, que fizeram entrar no edifício, ligando-os à antena, e começaram a emitir da rua. É lá que estão agora, estacionados na Rue Chavanne, mesmo em frente aos seus estúdios, rodeados por uma multidão.
"A esmagadora maioria da população do Haiti é analfabeta", diz Israel. "Por isso, a rádio sempre teve muita audiência. É a principal fonte de informação das pessoas. Mas agora é-o ainda mais. Toda a gente ouve rádio".
Por essa razão, Israel e os restantes trabalhadores da Rádio Caraíbas consideraram que tinham uma obrigação: ajudar as pessoas na crise pós-terramoto. Numa primeira fase, o que faziam era divulgar mensagens de pessoas que procuravam os seus familiares desaparecidos. Era uma espécie de Perdidos e Achados de seres humanos, numa cidade virada do avesso.
"Essa foi a fase emocional", explica Israel. "As pessoas andavam desesperadas, sem saber umas das outras, e nós demos uma ajuda. Não só a encontrar gente, mas também dando um sentido de ordem e de conforto na população. Para que as pessoas sentissem que não estão sozinhas".
Mas agora entrou-se numa segunda fase. Mais séria. A equipa reuniu-se e decidiu começar a organizar a cidade. Já que as autoridades não fazem nada, a Rádio Caraíbas assumiria o controlo.
"O Estado não existe", diz Israel Jacky Cantave. "E nós, jornalistas, temos uma grande responsabilidade. As autoridades não fazem nada. Nesses casos, a sociedade civil tem o direito e a obrigação de agir. É isso que nós hoje representamos: a sociedade civil do Haiti".
Organizar os bairros
Decidiram então organizar comités, em cada bairro, para ajudar a resolver os problemas.
Explicaram tudo na antena, e as pessoas, em cada zona da cidade, começaram a trabalhar. Foram criados cinco comités: de Saúde, de Segurança, de Recuperação de Cadáveres, de Relações Públicas e de Ajuda Alimentar. Em cada bairro, estes comités estão a recolher informação sobre as necessidades. A seguir fazem listas pormenorizadas e concretas sobre o que é preciso, que trazem para os "estúdios" da rádio. As listas são lidas no ar e depois entregues ao Governo, para que tome medidas. Ou as entregue às organizações internacionais, para que saibam onde e como actuar.
"Comité de Ajuda Alimentar do bairro de Martissant de Baixo...", lê-se num papel que alguém entregou e foi parar ao topo de um maço de centenas de folhas como aquela. "... Necessidades mais urgentes: 1- Entrega de rações de alimentos essenciais para 100 mil pessoas; 2- Entrega de dois mil pacotes de leite para crianças em risco..."
Israel tem a noção do papel que a rádio está a assumir, e do que as pessoas esperam deles. "A primeira fase foi individual, emotiva. Agora entrámos na fase do colectivo", explica. "Estamos a organizar-nos e estamos a actuar".



