Sarkozy hoje em Moscovo com missão difícil

08.09.2008 - 10:18 Por Isabel Arriaga e Cunha, PÚBLICO, Bruxelas
Os futuros contornos das relações entre a União Europeia (UE) e a Rússia estão suspensos do resultado da visita decisiva que o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, efectua hoje a Moscovo para obter garantias quanto à aplicação do cessar-fogo na Geórgia.
A visita, que decorre exactamente um mês depois do rebentar das hostilidades entre os dois países, está rodeada de grandes interrogações da parte dos europeus sobre a possibilidade de a Rússia aceitar recuar as suas tropas para as posições anteriores ao conflito.
Este é um dos aspectos cruciais do acordo de cessar-fogo que pôs fim às hostilidades, sob a mediação de Sarkozy, a 12 de Agosto, mas que o Kremlin tem dado sinais de não querer cumprir. “Tenho esperanças de que o Presidente francês fará algum progresso na clarificação do plano em seis pontos durante a visita na sua capacidade de presidente em exercício da UE”, afirmou ontem Angela Merkel, chanceler alemã, a uma rádio nacional.
A retirada das tropas russas, que se mantêm em “zonas de segurança” criadas por Moscovo à volta da Ossétia do Sul e da Abkázia, a outra província rebelde da Geórgia, constitui a condição para a UE retomar as negociações com a Rússia sobre um novo acordo de parceria estratégica.
Estas negociações foram suspensas na semana passada pela UE, que optou por não aplicar sanções contra Moscovo. Se os russos mantiverem a intransigência, a UE terá de “ser mais firme” com a Rússia, afirmou o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Bernard Kouchner.
Paris considera que dispõe de una vasta lista de sanções possíveis, a começar pela anulação da próxima cimeira semestral euro-russa, a 14 de Novembro. “Queremos continuar os contactos [com a Rússia], mas não podemos aceitar que o plano em seis pontos que desenvolvemos em conjunto não seja respeitado”, afirmou ainda Merkel na mesma entrevista.
A pretensão do Kremlin em se manter nas zonas de segurança, com o argumento de que o acordo de cessarfogo lhe permite conduzir “medidas especiais” para proteger a Ossétia e a Abkázia, saiu reforçada com a detecção de uma ambiguidade na tradução do texto do cessar-fogo, que permite permite diferentes interpretações sobre os seus termos.
Sarkozy, que será acompanhado por Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia e Javier Solana, chefe da diplomacia da UE, dispõe assim de um mandato dos Vinte e Sete para clarificar e obter o cumprimento integral do acordo de 12 de Agosto.
Outra das suas missões será convencer os russos a aceitar um reforço dos observadores internacionais, ao lado dos que já estão no terreno da OSCE, para supervisionar a retirada das suas tropas. Para isso, os Vinte e Sete têm praticamente concluídos os preparativos de uma missão civil de cerca de 200 pessoas, sobretudo polícias, que esperam enviar para o terreno até ao fim do mês.
Nesta frente, o optimismo dos europeus é mais sólido devido a alguns sinais de abertura de Moscovo. Sarkozy terá, no entanto, de obter do seu homólogo russo, Dmitri Medvedev, um mandato coincidente com as aspirações dos Vinte e Sete que inclui, sobretudo, a garantia de que a missão europeia se poderá instalar no interior das duas repúblicas rebeldes ou, no mínimo, nas respectivas fronteiras com a Geórgia. Depois de Moscovo, Sarkozy desloca-se a Tbilissi para explicar ao Presidente da Geórgia, Mikheil Saakachvili, o resultado dos encontros de Moscovo.

