Saddam Hussein: ascensão e queda de um ditador

30.12.2006 - 10:57 Por Alexandra Prado Coelho, PUBLICO.PT
Saddam Hussein sonhou reconstruir a Babilónia e recuperar o esplendor de Nabucodonosor, tendo criado à sua volta um culto de personalidade, espalhando o seu rosto por todo o Iraque, em cartazes, pinturas, fotografias e tornando-se omnipresente no país que governou durante 25 anos. Este mesmo homem morreu hoje, sozinho, sem povo, pela lei da forca.
Dizem os peritos que não foram os dotes oratórios nem o carisma que levaram Saddam ao poder absoluto.
Foi, antes, a sua ambição e a capacidade para ser impiedoso com os seus inimigos – e estes foram muitos ao longo dos anos, desde os curdos que mandou gasear no Norte do país, a alguns dos seus mais próximos colaboradores, e mesmo familiares, que mandou matar ou assassinou com as próprias mãos quando perdeu a confiança neles. E o que o manteve no poder – onde se revelou sempre um líder desconfiado, vivendo no medo constante de ser assassinado – foi a rede familiar e tribal de que se rodeou e que constitui até hoje o núcleo duro do seu regime.
A infância
Nasceu a 28 de Abril de 1937 em Ouija, uma aldeia de casas de tijolo, próxima de Tikrit, 170 quilómetros a Norte de Bagdad. Numa sociedade tribal como a iraquiana, é importante saber Saddam é sunita e que nasceu no clã al-Bejat, pertencente à tribo Albu Nasir. O seu pai, um camponês pobre, morreu pouco tempo antes do filho nascer, e a sua mãe, Subna al-Tulfah, voltou a casar-se com Ibrahim al-Hassan.
Saddam não se dava bem com o padrasto. A sua biografia oficial relata uma infância difícil, com Ibrahim a obrigá-lo a acordar de madrugada para ir tratar dos rebanhos. Ele queria estudar e – contrariando a família – um dia pôs-se a caminho da escola sozinho. Devido ao mau relacionamento com o padrasto, quando Saddam tinha dez anos, Subna decidiu enviá-lo para Bagdad para viver com o tio Khairallah Tulfa, oficial do Exército e militante antibritânico (o tio era também o futuro sogro de Saddam, que aos cinco anos já tinha sido prometido em casamento à sua prima Sajida).
A juventude
Foi aos 18 anos que Saddam se filiou no Partido Baas, aderindo aos seus ideais laicos e nacionalistas. Mas foi também nesse ano que viu rejeitada a sua candidatura à Academia Militar, por falta de habilitações. Os biógrafos apontam 1958 como a data do seu primeiro assassínio político – a vítima foi um militante comunista, morto em Tikrit com um tiro na cabeça. Terá sido esta acção – pela qual passou alguns meses na prisão – que chamou a atenção dos dirigentes do Baas para o jovem militante.
Saddam foi então incluído num comando de dez homens com a missão de assassinar o primeiro-ministro Abdel Karim Qassem (o general que em 58 derrubara a monarquia). O atentado falha, Saddam é ferido numa perna e foge, a pé e a cavalo, para a Síria, depois de ter retirado, ele próprio, a bala com uma faca. Durante os três anos seguintes, Saddam viveu em Damasco e no Cairo, onde estudou Direito. Foi a única altura da sua vida em que viveu no estrangeiro – mesmo depois de se ter tornado Presidente, as suas deslocações fora do país foram raras.
O terror
O regresso a Bagdad dá-se depois de o Baas ter, finalmente, conseguido derrubar Qassem, num golpe dirigido pelo coronel Ahmad Hassan al-Bakr, que era também seu tio. O cristão Michel Aflak, ideólogo do Baas, convida-o para a direcção do partido. Saddam é “investigador”, o que significa que é o responsável pelos interrogatórios. “Recorreu à tortura e, como qualquer um que faz essa actividade, eliminou fisicamente pessoas”, garante Said Aburish.

