Rússia: Putin chama a si próprio a tarefa de revelar o próximo candidato presidencial

16.09.2009 - 11:38 Por Dulce Furtado
O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin – que ocupou a posição máxima no Kremlin na última década até passar o testemunho ao protegido Dmitri Medvedev há pouco mais de um ano – deixou bem claro a sua posição de “mestre do jogo” ao anunciar que será ele a designar o candidato do partido dominante na Rússia a concorrer às eleições presidenciais de 2012.
Fá-lo-á “em acordo” com o actual chefe de Estado, afirmou em reuniões com os peritos russos e estrangeiros – entre estes últimos, muitos conselheiros de presidentes e primeiros-ministros ocidentais – que se encontram anualmente, desde 2004, na Rússia no chamado Clube Valdai. “Ficaremos de acordo porque somos do mesmo sangue e partilhamos a mesma visão das coisas”, sublinhou Putin, cujos discursos foram transcritos pela agência noticiosa russa RIA Novosti.
Já no remate e despedida das discussões de Valdai, ontem, Medvedev respondeu que, embora não possa dar garantias de sangue – “não sei qual é o grupo sanguíneo de Putin” –, pode ter-se como “exacto” que vê as coisas da mesma forma que o seu mentor. Ambos mantêm zelosos esforços, desde que Putin escolheu Medvedev como seu sucessor em Dezembro de 2007, em desmentir a teoria de que é o antigo Presidente e não o actual quem de facto manda na Rússia, uma ideia que as taxas de popularidade dos dois confirmam no imaginário da população do país.
“Se há por aí gente a sonhar, é bom que acorde, tome um duche e olhe para a realidade: é o Presidente quem está à cabeça da Rússia”, afirmou Putin, na sua habitual retórica rica de imagens. Mas, como em algumas outras ocasiões de expressivo simbolismo de poder – incluindo qual dos dois líderes representou o país em encontros internacionais – foi a Putin que coube o centro do palco. Foi Putin e não Medvedev quem fez o anúncio aos convivas do Valdai (num encontro de três dias na remota e belíssima cidade de Iakutia) que os dois decidirão juntos, e de acordo, qual deles será o candidato presidencial daqui a três anos.
Para muitos dos peritos presentes na reunião – nenhum pode ser citado directamente, segundo as regras do encontro – não restam grandes dúvidas que esse candidato será Putin, que se viu impedido constitucionalmente de inscrever o seu nome nos boletins nas últimas presidenciais, por ter cumprido dois mandatos consecutivos.
E quanto a Medvedev, apesar de ter manifestado já não excluir recandidatar-se, poucos o vêem como mais do que uma figura de transição – “um intervalo”, descreveria um perito ocidental presente em Iakutia – na longa estadia no poder de Vladimir Putin.

