Pela terceira vez em três meses, os italianos voltam às urnas: depois das legislativas que deram uma maioria curta à coligação de centro-esquerda de Romano Prodi, em Abril, e das regionais do mês passado, hoje e amanhã vota-se a reforma constitucional aprovada pelo Governo de direita de Silvio Berlusconi. Prodi defende o "não"; Berlusconi diz que o "sim" à reforma imposta pelos radicais da Liga Norte é a única escolha possível para um "italiano digno".
Para alguns comentadores, o referendo à proposta que implica a maior mudança de sempre à Constituição de 1948 é a mais importante das três votações, mas os italianos parecem cansados e a campanha foi morna. As sondagens começaram por dar uma grande vantagem ao "não", mas a diferença desceu de 20 pontos para entre sete e dez à medida que os partidários do "sim" agitavam a bandeira da diminuição de deputados e senadores. Teme-se uma abstenção elevada, mas o referendo é sempre válido.
Prodi recusou que este pudesse ser um teste ao seu Executivo, como já fizera nas regionais, dizendo-se disponível para discutir com a oposição várias das alterações contidas nesta reforma. E lembrando que alguns pontos constam do seu programa em formulações mais ambiciosas até, como é o caso da diminuição do número de deputados - a sua proposta é baixar para 400, em vez dos 518 desta lei, e já a partir da próxima legislatura, enquanto na reforma que vai a votos o decréscimo de parlamentares só entra em vigor em 2016.
Berlusconi, por seu turno, exortou os mais de 40 milhões de eleitores a "darem uma lição ao Executivo". A reforma foi-lhe imposta em Novembro por Umberto Bossi, líder da Liga, partido que nos últimos anos aligeirou o discurso separatista em nome das regiões do Norte para se concentrar na obtenção de um início de federalismo. Bossi ameaçou fazer cair o Governo se a lei não fosse votada: a reforma passou, mas sem dois terços do Parlamento as alterações só valem com referendo. "As pessoas do Norte continuam a pagar. Eu vou aos comícios e sinto: estão cansadas, fartas", disse esta última semana.
Enquanto todos os partidos do centro-esquerda apelam ao voto no "não", entre as formações da Casa das Liberdades (CdL), de Berlusconi, há alguns silêncios ilustres. Nem a Aliança Nacional (AN), de Gianfranco Fini, nem os centristas da UDC se fizeram ouvir na campanha. Se o texto for derrotado, a posição de Berlusconi poderá sair muito enfraquecida. Ao eventual abandono da coligação por parte da Liga poderão juntar-se apelos da AN e da UDC para a substituição do líder da CdL.
A esmagadora maioria dos constitucionalistas e juristas opõe-se. Ou porque defendem o texto actual, "acto fundador da República", nascido nos escombros do fascismo e considerado garante da identidade e unidade italianas, ou porque antecipam que os 50 artigos reescritos servirão para bloquear o funcionamento das instituições em vez de o modernizar de forma ambiciosa, como apregoam Berlusconi e Bossi. O mais importante constitucionalista do país, Giovanni Sartori, por exemplo, descreve a nova Constituição como "desastrosa" e fala de "um caos impossível de gerir".
O "espírito de unidade" que inspirou as forças políticas depois da II Guerra foi invocado ao longo de toda a campanha pelo grupo "Salvar a Constituição", que reuniu dezenas de especialistas e políticos incontornáveis do pós-guerra como o ex-democrata cristão Oscar Luigi Scalfaro, Giulio Andreotti ou o antigo presidente Carlo Azeglio Ciampi. Sublinhando que esta Constituição é imposta pelo ex-Governo de direita, alertaram para o aumento do fosso entre as duas Itálias de sempre - o Norte rico e o Sul pobre.
Há excepções, como a do editorialista Sergio Romano, que considera a Constituição existente "velha, inadaptada a resolver os problemas do país".


