Responsável da administração Bush assume caso de tortura em Guantánamo

14.01.2009 - 11:32 Por Reuters
A supervisora oficial do Pentágono para os julgamentos dos detidos na Baía de Guantánamo concluiu que os militares dos EUA torturaram um cidadão saudita que alegadamente planeou participar nos ataques de 11 de Setembro de 2001 aos Estados Unidos, noticia hoje o diário “The Washington Post”.
“Torturámos [Mohammed al-] Qahtani”, disse Susan Crawford numa entrevista ao jornal. “O seu tratamento corresponde à definição legal de tortura. E foi por isso que não fiz seguir o caso” para acusação.
Crawford, uma juíza reformada que também trabalhou na administração Reagan, é a principal responsável da administração Bush pela revisão das práticas em Guantánamo – na ilha de Cuba, onde os EUA têm uma base militar com uma prisão para onde levaram suspeitos de terrorismo – a afirmar que um detido foi torturado.
O Presidente George W. Bush e o vice-president Dick Cheney disseram que os EUA não torturam. Crawford disse ao “Post” que as técnicas usadas no caso de Qahtani foram autorizadas, mas aplicadas de um modo agressivo e demasiado persistente.
“Não foi nenhuma acção em particular; foi apenas uma combinação de coisas que tiveram impacto clínico sobre ele, que prejudicaram a sua saúde. Foi abusivo e não tinha sido pedido. E coercivo. Claramente coercivo. Foi o impacto clínico que me levou a passar o limite” de considerar tortura o que se passou, disse Crawford ao jornal.
Pentágono diz que na altura era legal
O porta-voz do Pentágono Geoff Morrell disse ao “Post” por correio electrónico que a organização reviu o interrogatório de Qahtani, o alegado vigésimo membro do grupo que desviou aviões no 11 de Setembro, e que concluiu que os métodos de interrogatório em Guantanamo, incluindo as técnicas especiais utilizadas com Qahtani em 2002, eram legais na altura.
Crawford não aceitou as acusações de crimes de guerra contra Qahtani em Maio de 2008, mas ele permanece detido em Guantanamo. A juíza considera que ele é perigoso e que hesitaria em dizer “libertem-no”.
A entrada de Qahtani nos EUA foi recusada um mês antes dos ataques de 11 de Setembro e alegadamente ele planearia ser o vigésimo pirata do ar nesse dia, diz-se no artigo. Foi capturado no Afeganistão em Janeiro de 2002 e transportado para Guantanamo.
Susan Crawford diz compreender os elementos dos serviços secretos que estavam a reunir informação com carácter de urgência a seguir ao 11 de Setembro. “Mas mesmo assim tem de haver uma linha que não deveríamos ultrapassar. E infelizmente o que isso fez, penso eu, foi manchar tudo o que se seguiu”, disse.
Disse também que Bush fez bem em criar um sistema para julgar combatentes inimigos capturados na guerra ao terrorismo. Mas, disse também, a sua aplicação teve falhas.
Obama deve mandar fechar
Espera-se que o presidente-eleito Barack Obama, que assume funções na próxima terça-feira, emita uma ordem executiva para o fecho da prisão da Baía de Guantanamo. O secretário da Defesa, Robert Gates, também defende o seu encerramento.
É no entanto improvável que a prisão feche antes de os funcionários americanos cumpram uma miríade de aspectos legais e logísticos, incluindo uma solução para alojar os seus ocupantes.


