Obama deverá ter 95 por cento do voto afro-americano

Reportagem: Os negros republicanos no momento do dilema

01.11.2008 - 10:32 Por Maria João Guimarães, Washington

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Apoio por solidariedade racial é um problema para muitos negros americanos Apoio por solidariedade racial é um problema para muitos negros americanos (John Gress/Reuters (arquivo))
C.J. Jordan anda muito ocupada e acha que este é o melhor sinal de que a campanha do republicano John McCain está a conseguir fazer passar a sua mensagem à comunidade negra dos Estados Unidos. O seu trabalho como coordenadora para o grupo de republicanos afro-americanos parece bastante difícil - convencer um grupo que já é mais próximo dos democratas a não votar no primeiro negro que tem hipóteses de ser presidente.

Jordan - que o PÚBLICO só conseguiu entrevistar por telefone - diz que não. "O que interessa são as políticas, as propostas", diz. As de John McCain agradam-lhe, e não concorda com as de Barack Obama. Frequentemente C.J. Jordan é a porta-voz dos republicanos na defesa de temas caros à comunidade negra: ainda recentemente, a afro-americana aparecia, cara redondinha e óculos de massa, na CNN a explicar a ajuda às vítimas do furacão Gustav. Em ritmo acelerado, C.J. Jordan repete as ideias-chave de McCain: "Menos impostos, independência energética, reforma em Washington." E há "muitas outras", como "a vida é sagrada", dispara, numa farpa à posição de Obama em relação ao direito ao aborto.

"Claro, haverá muitos negros a votar Obama só por causa de ele ser afro-americano. Mas embora reconheça o significado histórico, acho que o que está em causa, o que é mais importante, são as ideias."

A questão do legado

Seria isso que Jordan diria aos seus filhos quando estes lhe perguntassem sobre aquela eleição - uma das razões repetidas por muitos afro-americanos republicanos para mudarem, desta vez, o seu voto é o legado para a próxima geração, diz Michael Fauntroy, professor na Universidade George Mason e autor do livro Black Republicans.

Numa conferência sobre o tema numa biblioteca em Shirlington, nos subúrbios da capital americana, Fauntroy conta que um republicano negro lhe disse, recentemente, por que votaria em Obama: "Se não o fizer, o que vou dizer aos meus netos quando me perguntarem o que fiz para ajudar a eleger o primeiro presidente negro?"

Paul Ward define-se como um afro-americano republicano. Nestas eleições, pela primeira vez, vai votar num democrata, e confessa: "Quero poder dizer aos meus filhos que podemos ter orgulho num Presidente afro-americano."

Mas Paul Ward esteve muito tempo indeciso - na verdade, tinha acabado de se decidir quando falou com o PÚBLICO num restaurante de rodízio em Alexandria, nos subúrbios ricos de Washington. "Isto deve ser uma das coisas mais difíceis que vou fazer na vida, votar num democrata liberal." Inicialmente Ward, que é advogado de patentes numa farmacêutica, desconfiava de Obama: "A única coisa que temos em comum é sermos advogados e afro-americanos."

Depois de ter votado Bush nas últimas eleições, Ward confessa que está desanimado com o país e o partido. "O país está uma desgraça; o partido está muito à direita", diz.

Também está desapontado com McCain 08, que não é o "seu" McCain, o maverick [inconformista] que desafiou Bush nas primárias republicanas de 2000 (e em quem Ward votou na altura). "Acho que ele se vendeu. Está a tentar agradar ao tipo de pessoas de que Reagan tentou afastar-se."

Mais: "Não é consistente ao falar de economia. E fez uma má escolha de vice-presidente: Palin não o pode ajudar nessa área em que ele é mais fraco."

Na verdade, confessa Ward, Palin entusiasmou-o. "O discurso na convenção foi óptimo, pensei, uau! Mas depois, nas entrevistas, meu Deus, que desgraça. Não conseguia perceber perguntas simples", continua. "Se McCain queria uma mulher, podia ter escolhido alguém inteligente, como Bay Buchanan", irmã de Pat Buchanan, que trabalhou com Reagan.

95 por cento por Obama

"Obama criou um dilema para muitos republicanos negros", diz Fauntroy, mas adianta que esta não é apenas uma "questão de solidariedade racial". "Há uma grande frustração dos afro-americanos republicanos com o aparelho partidário por este não encontrar, financiar e apoiar candidatos negros competitivos que possam vencer eleições", nota.

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t

Eh vao ter orgulho no primeiro presidente afro-americano? Duvido muito.

Sousa da Ponte

02.11.2008 14:07

X

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