Reportagem: "O meu partido é São Vicente"

31.01.2011 - 19:15 Por João Manuel Rocha, no Mindelo, Cabo Verde
A capital cultural de Cabo Verde, a cosmopolita Mindelo, parece viver entre as queixas de abandono pelo poder central e a nostalgia dos tempos de glória. Já há quem fale em regionalização.
Flávio, que para quem ouve a Rádio Morabeza é antes "Pittbull", o "catchor mas uvid no Mindel", como, em crioulo, se apresenta há mais de oito anos aos microfones da pequena estação privada, diz que não tem opção partidária. "O meu partido é São Vicente, o líder do meu partido é o monte Cara."
Mas essa afirmação de amor à ilha - e à montanha de origem vulcânica a que a erosão deu uma forma que lembra um rosto humano a olhar o céu - não afasta "o cachorro mais ouvido do Mindelo" da ideia, presente em muitas conversas, de que São Vicente é relegada para segundo plano nas opções do Governo, instalado na Praia, em Santiago.
"Sei que se estivesse em Santiago a minha vida seria totalmente diferente, acho que há mais oportunidades porque o mercado é muito maior e porque em termos culturais, comparativamente a São Vicente, faz-se muito pouco", afirma Flávio Fernandes, de 32 anos, homem de sete ofícios (na foto em baixo).
Animador e realizador de rádio, na condição de "Pittbull", Flávio é também angariador e redactor de publicidade, manager de um grupo hip-hop e voluntário no Centro de Juventude de São Vicente, onde organizou um grupo de declamadores de poesia, outra paixão que cultiva. E está entre os que pensam que "foi feito muito pouco" por São Vicente. "Mesmo as pessoas do PAI que não são fanáticas têm a ideia de que o Governo não fez grandes coisas", afirma. PAI é, está bom de ver, o diminutivo para PAICV, o histórico Partido Africano da Independência de Cabo Verde, no poder.
O adiamento do Cesaria Resort, um projecto turístico de investidores do Dubai para a praia de Palha Carga e Calheta Grande, e os atrasos no arranque do previsto porto de águas profundas e do entreposto frigorífico do Porto Grande - empreendimentos que criariam emprego e dariam outra competitividade à ilha - são argumentos dos que defendem que São Vicente está a ficar para trás. "Se tivesse tido investimentos, hoje estaria no top. Não há investimentos, o comércio está fraco, a população está sem trabalho", desabafa um comerciante local.
Mas o peso da história e uma certa nostalgia da influência perdida parecem marcar também o Mindelo de hoje. A cidade tem ainda presente a memória de finais do século XIX, quando se desenvolveu e ganhou a marca cosmopolita e cultural que a define. Foram os tempos de glória do seu porto - demandado por navios que a escalavam para se reabastecerem de carvão antes de continuarem a sulcar o Atlântico - e de um decreto que chegou a determinar a nunca concretizada mudança da capital da Praia para o Mindelo. Uma das vozes do descontentamento pela perda de importância, e de reivindicação de mais atenção a São Vicente é, no plano político, a de Onésimo Silveira, ex-presidente da Câmara de São Vicente e antigo embaixador em Lisboa. "Este tipo de República da Praia, que nos está a colonizar em banho-maria, não vai dar bom resultado", disse já na actual campanha eleitoral o agora cabeça-de-lista do PTS, Partido do Trabalho e da Solidariedade, uma das pequenas forças concorrentes às eleições do próximo domingo.
Eternamente insatisfeita
O partido, que na legislatura que agora acaba teve o seu actual líder, João do Rosário, como deputado independente nas listas do PAICV, reclama uma "regionalização política" para combater os "efeitos perniciosos" da centralização e um modelo de organização do Estado com um senado, onde cada ilha teria um representante. O PAICV prefere falar em "descentralização administrativa" que reforce o poder de decisão local.


