Reportagem: O Exército de Deus quer salvar o Texas e depois a América

20.03.2010 - 11:04 Por Rita Siza, em Amarillo
"Que tipo de música é que vocês tocam?", pergunta David Grisham ao rapaz todo vestido de preto que está a descarregar instrumentos musicais de uma carrinha à porta do bar War Legion Underground. "Rock", responde este, indiferente. "Ah... rock", reconhece Grisham, a Bíblia na mão e um sorriso vago no rosto. "Sei muito bem. Eu costumava ser grande fã. Ouvi muito disso no passado", lembra.
O passado foi o tempo em que Grisham era um "fornicador e adúltero" e vivia uma "vida escatológica", segundo a sua própria descrição. E acabou há oito anos, quando David "entregou a vida a Cristo". Agora, "arrependido e purificado", este habitante de Amarillo, no Texas, lidera um grupo de vigilantes cristãos cuja actividade tem vindo a tornar-se incómoda, por causa do extremismo da sua actividade. "Como nós, também Jesus Cristo era um radical", defende o pastor.
O seu autodesignado Exército de Deus não tem um lugar de culto, antes "alvos" criteriosamente seleccionados para a prática de sessões de evangelização. O grupo segue um roteiro consagrado num chamado "mapa de guerrilha", onde estão assinalados os locais onde consideram ser preciso "fazer testemunho" de Cristo: bares frequentados por homossexuais, clubes de swingers, casas de strip-tease, lojas de produtos eróticos, grupos de conservação da natureza, organizações pacifistas, clínicas de planeamento familiar, clubes de astronomia ou gabinetes de astrólogas e cartomantes. "Os nossos alvos são todos os lugares associados ao sexo, bruxaria, paganismo, ocultismo e falsas religiões... Tudo o que é imoral e não é cristão", resume Grisham.
Nesta noite, reuniram-se à porta do War Legion Underground para uma "acção" encomendada pelo pai do músico de uma das bandas em cartaz. "Ele pratica uma música satânica", explica David Grisham ao PÚBLICO, "com letras demoníacas que falam de doenças, utilizam palavrões e promovem a promiscuidade e o consumo de álcool".
Com David está a sua mulher Tracy e o filho adolescente Shane. Seguram uma cruz de madeira de três metros de altura e distribuem literatura apelando ao arrependimento. Ao lado está Big John, um jovem imponente que já foi traficante de droga e membro de um gang, registando em vídeo as pessoas que entram e saem do bar (e também todas as perguntas da entrevista do PÚBLICO).
Há pouco mais de um ano, as férias, fins-de-semana e todos os momentos livres de Grisham e família são ocupados em acções semelhantes um pouco por toda a cidade - e ocasionalmente noutros lugares do país, como Nova Orleães, durante o Mardi Gras.
O "exército" comandado por David Grisham não só recorre à nomenclatura bélica como traja uniformes militares - calças de camuflado, botas... No entanto, a primeira coisa que o pastor faz questão de salientar é que o seu grupo não advoga nem pratica a violência. "Mas há uma guerra espiritual entre o bem e o mal, entre Deus e o diabo. E essa é uma guerra sem tréguas", diz.
"Chamam-nos os taliban americanos, mas nós não somos terroristas. Só tocamos nas pessoas para as abraçar", garante. Pelo contrário, continua, é o Repent Amarillo que frequentemente é alvo de ataques e intolerância religiosa. "As pessoas insultam-nos e já fomos agredidos fisicamente", refere.
Outro ponto em que Grisham insiste é que o seu movimento é estritamente religioso e não tem nada de político - apesar de, nota, "como cristãos, renegarmos toda a plataforma do Partido Democrata". O pastor tem péssima impressão do Presidente Barack Obama, que "é o mais liberal que a América já teve" e cuja eleição considera ser "um sintoma" da laicização do país.
"A nossa sociedade está a afastar-se de Deus e a seguir numa direcção errada. E a culpa nem é de Obama, é algo que tem vindo a acontecer há muitos anos. O diabo tem vindo a tomar conta da cultura", lamenta. "Nós gostávamos de mudar isso. É por isso que operamos como a igreja do primeiro século e pregamos na rua. Não porque queremos uma teocracia, mas antes uma "culturocracia": um regime em que as instituições funcionam de acordo com uma cultura que é liderada pelo Cristianismo", esclarece.
O clube de swingers fechou

