Reportagem: entre as ruínas e a réplica, há um hospital que vai no terceiro parto

21.01.2010 - 08:30 Por Paulo Moura, em Port au Prince
O médico tem um megafone na mão e vai anunciando, em crioulo: "Pernas partidas. Braços partidos. Ferimentos de qualquer espécie. Venham ao novo hospital americano, na Universidade de Gheskio."
A escoltar o grupo de médicos vai um grupo de algumas dezenas de marines, de camuflado, metralhadora e equipamento à prova de bala. Estão à frente do edifício magnífico, partido aos bocados, que é o palácio presidencial de Port au Prince.
As pessoas olham os americanos com desconfiança e alguma hostilidade. "Temos médicos americanos e haitianos", diz o médico ao megafone, dirigindo-se aos grupos de homens e mulheres que vai encontrando parados na rua. E continua a andar, na direcção do hospital, que fica a uma meia hora dali, a pé. É um médico haitiano, que vive nos Estados Unidos e veio para ajudar o seu país, integrado numa organização de cirurgiões vocacionada para cenários de emergência.
"Quando vamos para um lugar qualquer, levamos tudo connosco", explica Peter Hallan, médico da International Medical Surgical Responsive Team, uma organização sob dependência do governo americano. "Equipamentos, medicamentos, comida, água. Tudo veio dos EUA. Somos completamente auto-suficientes."
O edifício da Universidade de Gheskio apresenta alguns danos, mas está em perfeitas condições para ser utilizado. A equipa de 88 pessoas, entre as quais 12 médicos, vários enfermeiros e paramédicos, chegou ao Haiti há três dias e instalou-se na universidade. Fazem todo o tipo de tratamentos, desde curativos simples até complicadas cirurgias, em condições de excelência. Mas a maioria das pessoas ainda não sabe da existência do hospital. O contraste entre as condições nos campos de desalojados que circundam o edifício e o seu interior é chocante. Passando a porta, guardada por elementos das forças especiais da Marinha americana, entra-se noutro mundo. Limpeza absoluta, ambiente esterilizado, ar condicionado.
Várias tendas brancas, montadas no jardim interior do edifício, albergam as secções de Problemas Clínicos Menores, Problemas Clínicos Graves, Sala de Operações, Sala de Recuperação, Laboratório, etc. Se os doentes precisarem de tratamentos mais complexos, ou de um tempo prolongado de recuperação, serão transferidos daqui, de helicóptero, para um navio estacionado ao largo da capital, o USS Confort, também acabado de chegar. É um navio-hospital, com 500 camas, e está preparado para acções médicas complexas e para ficar por aqui o tempo que for preciso. Já recebeu, num dia, quase 50 doentes.
Uma mulher de 44 anos que acaba de ser operada a duas fracturas na bacia vai ser transferida para lá. Está deitada com um dispositivo metálico a atravessar-lhe as duas coxas e assim terá de ficar alguns meses, imobilizada. "O tratamento que lhe ministrámos é o procedimento normal para uma doente nestas condições, em qualquer bom hospital americano", diz o cirurgião, Frank Guido. "Ela agora vai para o USS Confort para recuperar, apenas para não ocupar uma aqui uma cama."
Essa necessidade ainda não se sentiu, porque o hospital está a trabalhar a uma percentagem reduzida da sua capacidade. Pode receber muitos mais doentes. Não o faz porque as pessoas não sabem da sua existência e não é fácil, no Haiti, espalhar uma notícia (verdadeira).
"Nunca trabalhei num sítio tão desorganizado", queixa-se Peter Hallen, que esteve no tsunami de 2004, no Sri Lanka e também na inauguração de Barak Obama. "Não há coordenaçao governamental dos vários serviços e forças. Ninguém sabe quem está a fazer o quê."
Na tenda da clínica ligeira está um rapaz a quem foram extraídas duas balas, num braço e numa perna, consequência de um ataque de ladrões, no campo de desalojados onde dorme. Os curativos estão feitos, o enfermeiro entrega-lhe duas muletas novas em folha, de alumínio, com apoio manual em napa cinzenta almofadada.
Na tenda ao lado, um bebé está a nascer. É um parto normal, a mãe colaborou de forma exemplar, explica a médica obstetra. É um rapaz, magro e esguio mas de perfeita saúde, que não chora. É quarto filho desta mulher e o terceiro bebé nascido no hospital dos americanos.


