As manifestações vão continuar hoje depois de Mubarak se ter recusado a sair. Os egípcios prometem parar o país até que isso aconteça.
Fúria. Nos olhos aturdidos, incrédulos, desapontados, faiscando na noite da praça Tahrir. A noite que unira as pessoas ainda mais, a noite da esperança, depois de todas as páginas do facebook, todos os twits, todas as televisões e rádios estrangeiras, todos os rumores dizerem que Mubarak se demitiria. Estava a ser a noite da liberdade, a noite do futuro, a noite da utopia. Muitos milhares de pessoas avançaram para a praça, convencidas de que chegara o momento da vitória. "Há 30 anos que esperávamos por isto", diziam. "Este é o dia mais feliz da minha vida".
Depois foi o choque. As pessoas ouviam o discurso de Mubarak, num ecrã de televisão instalado na praça, ou através de rádios ou telemóveis, e não acreditavam. "Falo-vos como um pai para os seus filhos", dizia Mubarak. "Tenho orgulho em vocês", continuava. "Ver aqueles que morreram, que pagaram com o seu sangue, quebrou-me o coração".
As pessoas demoraram a reagir. Por longos minutos, pareciam num estado de hipnose. Talvez no fundo nunca tivessem acreditado que seria diferente. Um manifestante dizia, pouco antes do discurso: "Eu não consigo imaginá-lo a dizer que se demite. Nunca o fará por sua vontade. Quando isso acontecer, alguém virá anunciá-lo por ele. Na melhor das hipóteses, será emitido um depoimento gravado antes".
Era impossível, mas ao mesmo tempo era imperativo que Mubarak se demitisse. Era certo que o faria. Era um facto consumado, era História. "The End", diziam muitos cartazes na praça. Tinha acontecido, já todos celebravam. E no entanto não. "O Egipto está a passar por tempos difíceis", dizia Mubarak. "Esta crise está a provocar enormes prejuízos ao país, e quem vai pagar por isso são vocês, os jovens, não sou eu nem as pessoas da minha geração", continuou ele, com o seu estilo de sempre, aquele que os mais jovens não entendem e os mais velhos já não ouvem. "Ele sempre fez aqueles discursos enormes e eu nunca percebia nada", dissera Nairy, de 24 anos. "Ouvia na televisão e depois telefonava às minha amigas a perguntar: o que é que ele disse? Disse que sim ou que não?"
"Vai-te! Vai-te!"
A meio do discurso a praça começou a estremecer. A raiva subiu à superfície da pele e transmitiu-se como corrente eléctrica através dos corpos comprimidos uns contra os outros. Mubarak falava das interferências estrangeiras a que nunca cedeu, e dos heróicos feitos de guerra que protagonizou, quando defendeu o país dos seus inimigos, e a multidão já não estava a ouvir. As palavras soavam, contundiam, feriam a noite, mas já ninguém estava realmente a ouvir. O slogan da revolução voltou a ouvir-se, mais seco, mais brusco e soletrado "Erhal! Erhal" (Vai-te! Vai-te!)
"Porque fala ele sempre da guerra?" disse Amany, 28 anos. "Qual guerra? Ninguém quer a guerra. Ninguém pensa em guerra. Os egípcios amam a paz. Nunca atacaríamos nenhum país. Para quê? Não odiamos ninguém. Só queremos viver em paz, em liberdade e em justiça. Somos um povo poderoso, mas queremos usar a nossa força para lutar contra quem nos humilha, nos tira a liberdade. E esses inimigos não estão no estrangeiro. Estão aqui no país".
Ninguém compreende a argumentação geoestratégica, a lógica tortuosa da realpolitik. "Porque estão sempre a falar do Irão, de Israel, da Arábia Saudita?", pergunta Mohamed Roshy, 31 anos, enfermeiro. "Isto é o Egipto. Porque nos dizem que Israel e o Irão são um perigo? Somos todos seres humanos. Eu não odeio as pessoas do Irão ou de Israel. Porque devemos temê-los? Que têm eles contra nós? Só queremos ter um emprego e viver em paz". Nairy tinha dito o mesmo. "Mubarak diz que nos protege da guerra. Mas de que guerra exactamente é que nos está a proteger? Ninguém sabe. Eu acho que não há guerra nenhuma".



