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Revolta no Egipto

Reportagem: a desobediência continua e há um parlamento popular nas ruas do Cairo

31.01.2011 - 13:58 Por Paulo Moura, Cairo

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Os protestos continuam apesar do recolher obrigatório Os protestos continuam apesar do recolher obrigatório (Foto: Goran Tomasevic/Reuters)
Apesar dos avisos, os egípcios não desmobilizam. ElBaradei quer ser o rosto deles, mas há outros nomes a serem aplaudidos nas ruas do Cairo.

A hora foi marcada no céu, como um último aviso furioso. Dois caças sobrevoaram o Cairo minutos antes das quatro da tarde, assinalando o início do recolher obrigatório. Com estrondo ensurdecedor, os jactos voaram em círculos durante uma hora, como se cumprissem uma missão de rotina. Mas cá em baixo não há objectivos militares, só o povo, que surge de todas as direcções rumando à praça. Em todas as ruas que lhe dão acesso há tanques e soldados de camuflado e metralhadoras, em posições agressivas, de canhões apontados. Não podiam ser mais explícitos. Todos os sinais da sua linguagem bélica e brutal dizem a mesma coisa: parem! Vão para casa! Não avancem para a praça.

Mas é precisamente para a Praça Al-Tahrir que todos avançam. E precisamente às quatro da tarde, a hora do recolher obrigatório. É um jogo de sinais. Os militares aumentam a ameaça e o povo aumenta a desobediência. Mas nada acontece. As pessoas passam pelos tanques, atravessam as barreiras, ignoram os aviões e os helicópteros de guerra que sobrevoam a cidade desde a manhã. Avançam para a praça.

Ignoram os tanques, mas abraçam os soldados, que correspondem às efusivas mostras de afecto com alguma moderação. O líder de uma das manifestações, que marcha desde a Ponte 6 de Abril, sobe, exaltado, para um tanque. Usa barbas e túnica, e os soldados ajudam-no a subir. Ele beija-os. Discursa para os manifestantes e beija de novo os soldados, na cabeça, como se fossem filhos dele.

Nalguns locais as pessoas fazem fila para cumprimentar os militares. Eles não voltam as costas, mas também não sorriem, ou quase. Percebem que o afecto para com eles é uma armadilha. Estão a fazer deles amigos à força, mas as instruções ainda não chegaram nesse sentido. Aparentemente, não chegaram instruções algumas. Dir-se-ia que os militares se posicionaram para agir, mas não agem, porque ainda não sabem que ordem virá. Nem de quem.

São dezenas, talvez centenas de tanques espalhados pelo centro da cidade, e a manifestação contra o regime desenvolve-se à volta deles, que são o próprio regime. Ou não. "Os militares são nossos amigos", diz um homem que traz um cartaz feito no cartão de uma caixa de fruta. "Eles são do povo. São nossos irmãos, nossos filhos. O inimigo é a polícia. Esses é que matam o povo egípcio desde há décadas."

Nos últimos dois dias, a polícia desapareceu por completo da cidade. E, com ela, a violência. Os militares estão presentes com meios desmesurados. Deviam funcionar como dissuasores, mas acontece o contrário. As pessoas transformaram-nos em aliados. A certa altura, quando um dos tanques começou a mover-se, a multidão, temendo que ele tencionasse retirar-se, colocou-se-lhe à frente, para o impedir. Os militares, quer queiram quer não, estão ali para proteger o povo.

"Eu acho que Mubarak vai dar ordens aos militares para dispararem", diz Ahmad Sharaf, de 35 anos, economista no desemprego. "Ele já deu um sinal, ao nomear para a vice-presidência um homem comprometido com a repressão. O que ele nos quer dizer é que no Governo estão agora figuras respeitadas e amadas pelos militares. Por isso, quando for dada a ordem para o massacre, ela será obedecida."

Entre o hotel Cleopatra Palace, o Nile Ritz-Carlton e a Grande Mesquita, a praça enche-se com milhares de pessoas. Não é uma manifestação única, são muitas, cada qual com os seus líderes e as suas palavras de ordem. Estas vão surgindo espontaneamente e aqueles também. Quase todas as pessoas têm cartazes. Arranjam um pedaço de papel e sentam-se no chão a escrever qualquer coisa. E se algumas manifestações já vêm formadas desde outros bairros, outra surge aqui mesmo, em torno de algum homem que de súbito se pôs a gritar.

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Comentário + votado

90% circuncisoes femininas

O Exército, tantas vezes o decisor da sorte das revoltas, mantém-se neutro. eu nao sei ...

joao

01.02.2011 02:57

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