Relações entre Índia e Paquistão continuam em estado de guerra fria

26.11.2009 - 10:12 Por Graham Usher
Os dez paquistaneses que mataram 163 pessoas na cidade portuária de Bombaim, no ano passado, reclamam pelo menos uma vitória póstuma: deixaram a Índia e o Paquistão à beira da guerra; fria, menos intensa, mas guerra, apesar de tudo.
Islamabad promove uma contra-insurreição impiedosa contra os taliban e a Al-Qaeda na sua fronteira com o Afeganistão, mas, ainda assim, a maioria do seu equipamento militar mantém-se no Leste, virado para a Índia. Nova Deli combate a sua própria rebelião maoísta nos estados do Sudeste, mas a maioria das suas forças permanece, também, alinhada contra o Paquistão.
De todas as consequências políticas do ataque de Bombaim esta é a mais perigosa: pôs fim ao frágil processo de paz entre a Índia e o Paquistão e fez regressar o espectro de um conflito nuclear entre duas nações que já lutaram por três vezes desde a partição da Índia britânica, há 62 anos.
A beligerância, não a paz, é o espírito do momento. A 22 de Novembro - na véspera da visita aos EUA - o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, disse à Newsweek: "É uma tragédia que o Paquistão tenha chegado ao ponto de usar o terrorismo como instrumento da política estatal". Singh referia-se a Bombaim.
Ligações perigosas
Islamabad nega a acusação. Washington e Londres também dizem que há provas do envolvimento do Estado paquistanês na carnificina. Pelo contrário, Islamabad concorda que o ataque foi "planeado parcialmente" no Paquistão e executado pelo Lashkar-e-Taiba (LeT): o grupo militante paquistanês em tempos fomentado por Islamabad para lutar numa guerra em seu nome pelo disputado território de Caxemira, mas ilegalizado após o 11 de Setembro. Islamabad prendeu sete elementos do LeT suspeitos de ligação aos atentados.
Mas Nova Deli contrapõe que a investida deixou intacta a organização do LeT, incluindo a sua ala política, o Jamaat-ud-Dawa (JuD). Pior, o homem que a Índia acusa de ser o "cérebro do ataque - o fundador do LeT e líder do JuD, Hafiz Saeed - continua livre. Por duas vezes foi posto em prisão domiciliária em Lahore e por duas vezes foi libertado pelo Supremo Tribunal do Paquistão.
A maioria das provas reunidas pela Índia contra Saeed resulta da confissão do único atacante sobrevivente, Ajmal Kasab, muito provavelmente sob tortura. Os advogados paquistaneses alegam que não serão válidas em tribunal; tal como pensam os investigadores americanos e britânicos. Mas a facilidade com que Saeed teve direito a um processo justo - comparado com outros prisioneiros políticos que não têm - confirma, para muitos, que ele e o LeT continuam a ter protectores entre os poderosos serviços militares e de informações paquistaneses.
Contudo, a principal razão que impede o Paquistão de perseguir o LeT é política. No último ano, o Exército paquistanês tem estado em guerra com as guerrilhas taliban locais e da Al-Qaeda. A guerra não se limita à fronteira ocidental com o Afeganistão. No último mês, mais de 300 pessoas foram mortas em ataques de retaliação inspirados pelos taliban em Peshawar, Islamabad, Lahore, Rawalpindi e outras cidades.
O LeT é um dos poucos grupos jihadistas que não pegaram em armas contra o Estado paquistanês; é também um dos mais temidos, treinado por longos anos de guerrilha na Caxemira. A ideia de que o Exército pode abrir uma nova frente contra ele a pedido de Nova Deli ou Washington é imaginária, diz o senador paquistanês Mushahid Hussein. "Vamos perseguir os que estiveram por trás [do atentado] de Bombaim. Não podemos fazer mais. A Índia tem de ser realista".
Nova Deli também fez pouco para aliviar as tensões, argumenta o Paquistão. Em Maio, o chefe do Exército paquistanês, Ashfaq Kayani, ofereceu-se para tirar algumas das suas forças junto à fronteira leste - libertando-as para lutar contra os taliban ou a Al-Qaeda no Oeste - se a Índia fizesse o mesmo. A resposta indiana foi aumentar a sua presença junto à fronteira e organizar, em apenas três dias, "exercícios militares".

