Rei Juan Carlos insta Hugo Chávez a calar-se no último dia da Cimeira Ibero-Americana

10.11.2007 - 18:31 Por Sofia Branco, em Santiago do Chile
O Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, voltou hoje, na sessão plenária da XVII Cimeira Ibero-Americana, a chamar “fascista” ao ex-primeiro-ministro espanhol José María Aznar, e a criticar a imprensa espanhola por “atacar” o seu regime, o que levou o rei Juan Carlos a irritar-se.
O actual chefe do Governo de Madrid, José Luis Rodríguez Zapatero, usou da palavra para insistir – já o tinha feito de manhã, em conferência de imprensa – no “respeito” por Aznar. “Pode estar-se nos antípodas de uma posição ideológica, e eu não estou próximo das ideias de Aznar, mas ele foi eleito pelos espanhóis e exijo esse respeito”, declarou, propondo a adopção de um “código de conduta” para as intervenções em sessão plenária.
Chávez tentou interrompê-lo e, apesar de o microfone se manter desligado, continuou, não longe da delegação espanhola, a reclamar o seu direito à liberdade de expressão, o que levou o rei Juan Carlos, de Espanha, sentado ao lado de Zapatero, visivelmente irritado, a, enquanto gesticulava, perguntar a Chávez: “Por que não te calas?”
Em seguida, claramente perturbada, a anfitriã do encontro, a Presidente chilena, Michelle Bachelet, deu a palavra ao seu homólogo da Nicarágua. Daniel Ortega recusou os “três minutos”, avisou que falaria o tempo que lhe apetecesse e, em nome da liberdade de expressão e da diversidade democrática, ofereceu primeiro a palavra a Chávez, para que pudesse responder a Espanha. O líder venezuelano limitou-se a citar o “pai da pátria” do Uruguai, José Gervasio Artigas: “Com a verdade, não ofendo nem temo.”
Daniel Ortega falou durante 20 minutos, apoiando as apreciações de Chávez sobre Aznar, criticando a “aliança político-militar” que aquele teceu com os EUA. Sempre olhos nos olhos com Zapatero e Juan Carlos, o líder da Nicarágua defendeu o “direito à liberdade de expressão” de Chávez, que apenas criticou “o cidadão” Aznar, que “fez e continua a fazer campanha contra a Venezuela”. “Se nós temos que vos respeitar, vocês têm de se dar ao respeito”, reclamou. Irritado, Juan Carlos acabou por abandonar a sala, tendo voltado ao plenário apenas após o hino, para a sessão de encerramento.
Portugal e Venezuela são países amigos
Antes do incidente, a que já não assistiram Cavaco Silva e José Sócrates, o Presidente e o primeiro-ministro informaram que o conhecimento e a inovação serão os temas do encontro anual dos chefes de Estado e de Governo dos 22 países ibero-americanos, que Portugal acolherá em 2009, debate que alguns jornalistas latino-americanos qualificaram como “muito europeu”.
Questionado sobre as relações com o Presidente venezuelano, José Sócrates classificou a Venezuela como “um país amigo”, para acrescentar depois: “Portugal respeita os chefes de Estado de países amigos sempre que sejam eleitos em eleições livres e justas.” O contrário, sublinhou, seria “uma visão diplomática infantil”, até porque o espaço ibero-americano é “assumidamente plural e diverso”.
Destacando que o que importa são os “interesses comuns”, Cavaco Silva reconheceu, porém, que “existem algumas diferenças de interpretação de liberdade e de democracia”, apesar de considerar que, desde a primeira cimeira, em 1991, a última “está hoje mais espalhada” na América Latina.
À pergunta que sugeria uma presença discreta de Portugal face à hegemonia espanhola nas cimeiras, José Sócrates vincou, algo irritado: “Portugal não tem nenhum complexo de inferioridade face a Espanha.” Cavaco Silva acabou por pôr água na fervura, salientando que “os países latino-americanos sempre consideraram essencial a presença de Portugal, por uma questão de equilíbrio” e que, na cimeira de Santiago, encontrou “os mesmos sinais”.
E, sustentando que “as relações de cooperação têm vindo a reforçar-se”, disse que a maior disponibilidade financeira de Espanha em relação ao continente é compreensível. Ao PÚBLICO, o embaixador Nunes Barata, coordenador nacional para a cimeira de Santiago, realçou que as ibero-americanas são “a CPLP de Espanha” e que Portugal “tem outras responsabilidades, face a outras áreas geográficas onde tem de gastar mais dinheiro”.

