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Crónica

Raquel Evita Saraswati: Proibir é dar um presente ao islão radical

29.08.2010 - 12:39

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Raquel Evita Saraswati Raquel Evita Saraswati (DR)
Sou americana, sou muçulmana e uso o hijab. Como tal, pedem-me frequentemente que explique o niqab, o véu facial, quase sempre negro, que só deixa a descoberto os olhos das mulheres.

Quando me perguntam, dou o meu melhor para explicar por que é que algumas mulheres o usam.

No entanto, quando pressionada a dar a minha opinião pessoal, tenho de ser honesta: considero terrivelmente perturbador o niqab e a sua crescente popularidade.

Tenho ouvido e lido muitos argumentos contra o niqab com os quais eu concordo. No entanto, não ouvi qualquer argumento que me tenha convencido de que seja aceitável regular as expressões religiosas nas sociedades livres ou que esses regulamentos sejam, de facto, bons para as mulheres. Como americana, a defesa que faço da liberdade religiosa não me permite apoiar a proibição do niqab.

Compreendo intimamente que as mulheres usem vestes - religiosas ou culturais - por muitas razões. Compreendo que as mulheres que usam o niqab não partilham uma perspectiva singular. Por isso, os meus sentimentos negativos sobre o niqab têm a ver com a própria peça de vestuário - e não todas as muçulmanas que a usam.

Para mim, o niqab e a burqa representam tudo o que está de errado no mundo muçulmano actual. Em países onde estes véus são a norma - ou até mesmo impostos por lei - testemunhamos algumas das piores condições de direitos humanos dos nossos tempos.

Embora o niqab não seja, por si só, obviamente culpado pelas muitas violações de direitos humanos cometidas em nome do islão, é uma ingenuidade alegar, como alguns fazem, que "não representa nada". As justifi cações religiosas para usar o niqab são, no mínimo, questionáveis.

Destacados teólogos e instituições muçulmanas têm repetidamente declarado que o niqab não é islâmico e alguns defendem até a sua proibição.

No entanto, quando regimes islamistas tentam subjugar a mulher, o niqab e a burqa são instrumentos que usam para tornar as mulheres invisíveis. Nessas sociedades, é colocado sobre as mulheres o peso de comunicar a piedade religiosa, a abstinência sexual e a feminilidade muçulmana. Não há escolha entre cobrir-se ou não se cobrir - uma rebelião pode ser fatal.

Em algumas áreas do mundo muçulmano onde as interpretações ultraconservadoras do islão ditam a lei do país, as mulheres são presas, interrogadas e frequentemente torturadas por mostrarem um fi o de cabelo, por desvelarem os pulsos ou até por usarem calças. Vítimas de violação são apedrejadas até à morte.

Ao invocarem justificação religiosa, os Estados "islâmicos" decretam castigos como amputação, flagelação e execução para infracções que vão desde beber álcool até falar com alguém do sexo oposto. As liberdades de expressão e de religião não existem. Dissidentes e apóstatas temem pelas suas vidas em igual medida.

Na sua tentativa de banir os véus dos rostos, a França julga, aparentemente, que está a tomar posição contra as versões radicais do islão que eu acima descrevi. Contudo, eu acho que a proibição do niqab e da burqa não é apenas uma afronta aos valores ocidentais e à liberdade das mulheres -mas também um presente ao islão radical.

Há informações de que meio por cento das mulheres muçulmanas em França usam o niqab.

Algumas dessas mulheres seguramente que optaram por o usar. No entanto, o que dizer sobre aquelas que não escolherem usá-lo? Os proponentes da interdição têm argumentado que ela dará às mulheres a oportunidade de mostrarem os seus rostos em público independentemente dos desejos dos seus maridos ou famílias. Esta é uma assunção, simultaneamente disparatada e perigosa.

Nos casos em que uma mulher é forçada a usar o niqab ou a burqa, a resposta imediata que o seu guardião masculino terá, após esta proibição, será a de obrigar a mulher a ficar dentro de casa. Incapazes de sair, estas mulheres fi carão privadas das oportunidades de interagir com uma sociedade e ideias seculares.

Os franceses poderão até constatar uma diminuição no uso do véu - mas o que, na realidade, estarão a ver é uma maior invisibilidade das mulheres muçulmanas.

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