O dia 9 de Novembro de 1989 ficou para a memória colectiva como a data de implosão do império soviético na Europa. No entanto, a História explica que a Cortina de Ferro foi destruída pela Polónia, pela Hungria e por Gorbatchov.
Na nossa memória, as "transições para a democracia" na Polónia e na Hungria são um "antecedente" da queda do Muro de Berlim. Mas a história de 1989 pode ser lida ao contrário. As revoluções - no sentido de mudança radical da ordem vigente - ocorreram na Polónia e na Hungria. Produziram a seguir uma reacção em cadeia que "explodiu" em Berlim e, por fim, fez tombar como dominós os regimes da Checoslováquia, Bulgária e Roménia.
A queda do Muro é o ícone do fim do comunismo europeu. As imagens de milhares de alemães orientais a passar a fronteira e, depois, a demolir o muro à picareta, impressionaram para sempre milhões e milhões de espectadores.
Desde a sua construção em 1961, o Muro era o símbolo da Guerra Fria e da divisão da Europa. E a sua queda inevitavelmente arrastaria outra questão escaldante que transformaria, uma vez mais, a geografia política da Europa: a reunificação alemã.
Berlim não é o motor, é o apogeu, aquele momento que tem "um antes e um depois".
Há um modelo?
A ideia de "fim do comunismo" encobre as diferenças. Não foi um simples fenómeno de "contágio". É um cacho de processos distintos.
Na Polónia, há uma sociedade mobilizada e uma oposição forte contra um partido comunista fraco. Na Hungria, há uma oposição fraca e são os comunistas reformadores quem organiza o "suicídio" do regime, dissolvendo o partido e construindo a oposição.
Sob a vigilância omnipresente da Stasi, não havia oposição na RDA. Será preciso a Hungria abrir a fronteira com a Áustria para provocar o êxodo que desestabilizará o regime. E Moscovo terá um papel determinante no afastamento de Honecker.
A Checoslováquia do "socialismo de rosto humano" de 1968 nunca recuperou da invasão dos tanques soviéticos. Não havia oposição, havia "dissidentes". Só após a queda do Muro a juventude de Praga se sublevará: a "revolução de veludo" triunfa em dez dias.
Na Bulgária, o ditador Todor Jivkov é destituído por um golpe palaciano, inspirado por Moscovo. A 25 de Dezembro, o romeno Ceausescu é fuzilado, após um simulacro de insurreição manipulada por comunistas com ligações ao KGB.
Polónia: a sociedade triunfa
A "ressurreição" polaca remonta a 1978, ano da eleição de João Paulo II, que galvanizou os católicos e o nacionalismo polaco.
O maciço movimento operário de 1980, iniciado em Gdansk, traduziu-se na criação do primeiro sindicato livre do mundo comunista - o Solidariedade. É um sindicato-partido, reunindo operários e intelectuais, a quem a Igreja oferece a logística. Ultrapassado, o partido comunista (POUP) nomeia secretário-geral o chefe das forças armadas, general Jaruzelski. Em 1981, Jaruzelski decreta o estado de sítio, dissolve o Solidariedade e prende os principais dirigentes. Argumentará mais tarde ter querido prevenir uma invasão soviética.
O totalitarismo exige a passividade e os cidadãos eram activos. A tarefa do Solidariedade era exactamente "o renascimento da sociedade civil". E assim foi, mesmo durante o estado de sítio.
A situação torna-se insustentável em 1988, com crise económica, greves maciças, impotência do regime.
Dois homens, Jaruzelski e Lech Walesa, tomam uma decisão arriscada: negociar uma transição. Muitos comunistas a temiam, pensando (justamente) que seria o princípio do fim. A dúvida dos democratas era outra: iriam legitimar um regime ditatorial? A maioria apostou na "eficácia do contágio democrático".
Na Mesa-Redonda de Fevereiro-Março de 1989, chega-se a um compromisso histórico. O Solidariedade é legalizado. A liberdade de imprensa e o pluralismo político são reconhecidos. São marcadas eleições "livres a 35 por cento": a oposição podia concorrer apenas em 35 por cento dos círculos e a todos os lugares do Senado.


