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O Grande Salto em Frente de Mao Tsetung foi um salto para o abismo

Quando a China desceu ao inferno

28.12.2010 - 19:13 Por Francisca Gorjão Henriques

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Nas fábricas, os operários trabalhavam em condições desumanas Nas fábricas, os operários trabalhavam em condições desumanas (Bettmann/Corbis)
O regime chinês chama-lhe ainda um desastre natural. O historiador britânico Frank Dikottër assegura que foi um dos maiores assassínios em massa da história da humanidade. O Grande Salto em Frente fez em quatro anos pelo menos 45 milhões de mortos, diz. E só teve um protagonista: Mao Tsetung.

É preciso ir buscar os episódios mais negros da história do século XX para haver possíveis comparações com o que aconteceu na China entre 1958 e 1962: o gulag de Estaline, o holocausto de Hitler, o genocídio de Pol Pot.

O balanço das vítimas de toda a Segunda Guerra Mundial é de 60 milhões. O regime de Mao Tsetung foi rápido e em menos tempo matou à fome, por tortura ou homicídio, 45 milhões; foi como o genocídio do Khmer Vermelho multiplicado por 20, defende Dikottër.

Mas ao contrário dos outros episódios, as verdadeiras dimensões do Grande Salto em Frente continuam a ser muito pouco conhecidas, escreve o historiador. O livro Mao"s Great Famine - The history of China"s most devastating catastrophe 1958-1962 (A Grande Fome de Mao - história da catástrofe mais devastadora da China), publicado em Setembro pela Walker & Company, é ilucidativo. Durante aqueles anos, "a China desceu ao inferno".

A abrir, a frase do "Grande Timoneiro": "A revolução não é um jantar de convívio."

Os campos da morte

Em 1957, Mao determinou que a China teria 15 anos para utrapassar o Reino Unido, uma das grandes potências industriais. "Este ano, o nosso país produziu 5,2 milhões de toneladas de aço... Em 15 anos produziremos entre 30 e 40 milhões de toneladas", anunciou o líder. Começava o Grande Salto em Frente, escreveu Dikottër.

A China deveria caminhar com duas pernas ao mesmo tempo, isto é, desenvolver a indústria e a agricultura em simultâneo, empenhada tanto na pequena indústria como na pesada.

O "salto" começou com projectos hídricos para irrigar as terras áridas do Norte e conter as grandes inundações do Sul. "Por toda a China, dezenas de milhões de agricultores juntaram-se a projectos de irrigação", escreve. "Em Janeiro de 1958, uma em cada seis pessoas estava a escavar terra." Em alguns locais do país, um terço da população estava de pá na mão. Milhões e milhões foram alimentar as fornalhas para fundir ferro.

Os sinais da fome foram evidentes muito cedo. Os agricultores foram arrastados para os sistemas de irrigação, em trabalho escravo com pouca comida e sem qualquer assistência médica. Morria-se de exaustão ou malnutrição. A população de uma localidade na província de Gansu chamava a estas zonas "campos da morte".

O importante era conseguir cumprir os objectivos traçados pelo regime. "Todo o país se tornou num universo de normas, quotas e metas às quais era impossível escapar", lê-se.

Se o que valia era dar números, quando não os havia inventavam-se. Atingiram-se recordes na produção de arroz, algodão, trigo, amendoim. As colheitas no final de 1958 duplicaram as do ano anterior. Em números. "A China era um imenso palco de teatro", contaria um responsável que acompanhava Mao nas suas visitas pelo país.

Os agricultores deixaram de ser vistos como tal. "Todos são soldados", proclamou. E foi com directivas militares que se organizou a vida quotidiana de 500 milhões de chineses.

Os primeiros sinais da fome apareceram logo em 1958. Mas no ano seguinte era já generalizada,escreve Dikottër. E apesar de muitas omissões, "Mao recebeu vários relatórios dando conta da fome, doenças e abusos vindos de todos os cantos do país".

Sem travões

Alguém poderia ter travado o Grande Salto em Frente? "Só um homem, que era Mao Tsetung, e ele estava determinado a avançar", responde Dikottër ao P2. "Os seus colegas, os números dois, três, poderiam, mas estavam demasiado receosos, ou na ignorância. Toda a liderança alinhou." No livro, o historiador especifica: "[Mao] nunca tinha conseguido vencer se Liu Shiaoqi e Zhu Enlai, os dois mais poderosos a seguir a ele, tivessem actuado contra si."

Houve alguma oposição inicial de um ou outro responsável, mas também purgas exaustivas em todos os níveis do partido. A necessidade de ficar no poder, ou evitar a morte, falou mais alto.

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Comentário + votado

Os meus 2 tostões para este peditório:

Aos adolescentes que curtem as t-shits do Che Guevara (que menino...) e mais a festa do Avante!, e ...

Marcos Souza

29.12.2010 22:31