PSOE afunda-se nas sondagens e Zapatero fica mais isolado

01.06.2010 - 08:56 Por Ana Fonseca Pereira
O Governo espanhol confirmou ontem que vai aprovar a reforma da lei laboral, mesmo que os parceiros sociais não se entendam. É a mais recente tentativa de José Luis Zapatero para acalmar os mercados - que temem um colapso económico idêntico ao da Grécia - e tentar recuperar a iniciativa, numa altura em que o PSOE se afunda nas sondagens e, sem o apoio dos aliados tradicionais, pode ser obrigado a convocar eleições antecipadas.
Uma sondagem divulgada domingo pelo "El Mundo" concluiu que, se as legislativas fossem agora, o Partido Popular (PP) venceria com a maioria absoluta (45,6 por cento dos votos) e a mais de dez pontos de vantagem sobre o PSOE. O estudo acrescenta que mais de metade dos inquiridos (50,6) estão descontentes com o Governo e querem legislativas antecipadas.
O mal-estar provocado pela crise não é de hoje - a taxa de desemprego foi crescendo mês após mês até chegar aos 20 por cento actuais -, mas para a imprensa há um antes e um depois da aprovação, por um único voto, do plano de austeridade exigido por Bruxelas. Até quinta-feira, Zapatero liderava um Governo em dificuldades pela necessidade de reduzir o défice. Agora, fala-se num líder isolado, num primeiro-ministro que pode deixar de o ser antes do final do ano.
"O seu tempo como presidente do Governo acabou", disse Duran Lleida, secretário-geral da Convergência e União (CiU), na acesa discussão das medidas para acelerar a redução do défice, incluindo a redução em cinco por cento dos salários na Função Pública. A frase ecoou como um aviso e ganhou mais força por ter sido a abstenção dos catalães que salvou a face de Zapatero, depois de o Partido Nacional Basco (PNV) ter anunciado que votaria contra o pacote.
Sem maioria absoluta, os socialistas dependem dos partidos à sua esquerda e dos nacionalistas para governar. Mas em tempos de crise, escreveu o La Voz de Galicia, "todos os partidos consideram que o contacto com o executivo escalda e a exiguidade dos cofres públicos impede-o de pagar com recursos [o apoio] das autonomias".
Do lado do PP há sugestões de que, face ao desnorte económico, pode apresentar uma moção de censura ao Governo, mas em público ninguém confirma a opção - que não escaparia às agências de rating, mais atentas do que nunca à evolução política nos países com dívidas públicas elevadas.
Orçamento em risco
O momento decisivo deverá ser, por isso, a discussão do Orçamento para 2011, em Setembro. A CiU anunciou que os socialistas não contarão com o seu voto e avisou Zapatero que deve convocar eleições antecipadas se não conseguir aprovar o diploma - um repto repetido pelo PP. As atenções viram-se, assim, para o PNV. Os bascos foram essenciais para a aprovação das contas de 2010, mas depois de quinta-feira é incerto se repetirão o apoio.
Os socialistas admitem que têm de "reconstruir alianças", mas garantem que esta é "uma legislatura para quatro anos", como afirmou ao "El Mundo" o ministro do Fomento.
Para mostrar que mantém o controlo, Zapatero aposta na reforma da rígida legislação laboral, que um relatório divulgado na semana passada pelo FMI considerou "urgente".
O Governo deu mais uma semana às negociações na concertação social, que deveriam ter terminado ontem, mas, perante a perspectiva de um bloqueio, a ministra da Economia, Elena Salgado, anunciou que, "se as discussões não produzirem resultados, o Governo vai pôr em marcha a reforma antes do final de Junho". A jogada pode agradar aos mercados, mas os sindicatos prometem uma greve geral se o executivo avançar sozinho com as alterações, como a que torna mais barato o despedimento de trabalhadores com contratos sem termo.
Zapatero "está convencido de que não tem futuro político sem estas reformas, mas também não é óbvio que terá futuro com estas reformas", explicou à Reuters Luis Garicano, professor na London School of Economics.


