Um enorme susto: "Dei um tremendo salto da cama", começa por contar Luz Gomes, a viver em Santiago do Chile há ano e meio. "Tudo se mexia, as coisas caíam: livros, garrafas, a aparelhagem." Luz saiu da cama que mexia para o chão - que também mexia: "Durante uns segundos foi complicado manter-me de pé". Ouviu barulho de estuque a cair, começou o som do alarme. À pressa vestiu qualquer coisa e saiu para a rua.
"Dizem que o abalo durou pouco mais de um minuto - a mim pareceu-me uma eternidade", conta através do chat do Skype, programa de comunicação de Internet, numa conversa com o PÚBLICO. Quando se ligou ao Skype, colocou logo no seu estatuto: "Estou bem!" para que todos os contactos pudessem ver. Também os portugueses contactados pela Embaixada de Portugal em Santiago estavam bem, disse a agência Lusa: Luz Gomes conta que os portugueses pareciam ter sido todos contactados.
Luz Gomes, professora assistente da Universidade Arturo Prat e aluna de Estudos Europeus da Universidade Aberta, vive num prédio de 23 andares, mas mora no segundo andar, portando teve sorte: não sentiu tanto como se estivesse mais alto.
Já Sandra Manuelito, funcionária da ONU em Santiago, vive num décimo sexto andar. Primeiro o susto de acordar com o terramoto, que foi "muito longo - durou dois minutos e meio", conta ao PÚBLICO, também no Skype.
Por precaução, a electricidade é cortada para que não haja incêndios e os elevadores deixam de funcionar. "Uma vez que passou o terramoto grande, vimos os danos causados - toda a loiça quebrada, copos partidos, gretas nas paredes -, agarrámos nos miúdos e descemos desde o 16.º andar, pelas escadas, para a rua."
O consultor de inovação em modelos de negócio Bruno Serrano e a mulher vivem em Santiago há ano e meio, num sétimo andar, e já sentiram alguns pequenos abalos. "A minha esposa sente sempre os tremores de terra antes de começar a tremer, e já estava a pé antes de tudo começar", conta, num e-mail ao PÚBLICO.
"Mas percebemos que esta noite o abalo era mais forte quando começaram a tilintar as loiças, caíram os quadros das paredes, os livros das estantes." Debaixo de uma ombreira de uma porta, "sentimos como o edifício dançava como gelatina, vimos como se abriam gretas nas paredes e tecto". Quando acalmou, "agarrámos sapatos, casaco e algumas coisas básicas, tipo água e umas bolachas, e deixámos o edifício, procurando uma praça aqui perto, que está relativamente longe de edifícios altos".
"Estava toda a gente na rua", relata Sandra Manuelito. "As pessoas têm medo das réplicas - eu também - e tem havido réplicas muito seguidas", diz, comentando: "Mas, depois de um terramoto de grau 8,8, uma réplica de 5,5 até nem assusta tanto".
Para percebermos a frequência das réplicas, Sandra Manuelito conta: "Enquanto estou a falar consigo o candeeiro em cima de mim não para de se mexer". Ela sabe que "vai mexer o dia todo", mas desabafa: "O problema é se abana mais da conta". Sandra continua a ter "muito respeito" aos tremores de terra, embora lembre que os chilenos já estão bastante habituados porque há frequentes abalos no país. "É comum estarmos a trabalhar no escritório e de repente o ecrã do computador começar a abanar."
Luz Gomes diz o mesmo. "Toda a gente na rua estava assustada, mas creio que os mais assustados eram mesmo os estrangeiros. O meu namorado só me dizia "tranquila, tranquila, que isto é normal" e eu só pensava: como que tranquila?"
"Como estar num barco"
Depois de duas horas na rua - "as estradas encheram-se de carros a grande velocidade, como em hora de ponta", conta - Bruno Serrano voltou para casa. As réplicas impediram grande descanso: "Às sete da manhã chegámos a saltar da cama de novo alarmados por uma réplica muito forte que parecia ser séria", diz no e-mail, e continua: "Agora mesmo (16h00) sente-se uma bastante forte! De uns 20 segundos. É como estar num barco..."
Mas, apesar das réplicas, a situação era descrita como calma. O Governo chileno deu instruções para as pessoas evitarem deixar as suas casas enquanto se está ainda na fase de avaliação dos danos. Os transportes públicos não tinham recomeçado a funcionar, mas quem precisasse podia já fazer compras em alguns supermercados ou farmácias, entretanto abertos.



