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Políticas de imigração e cooperação em escrutínio

Portugal no "banco dos réus" um ano depois da cimeira UE-África

09.12.2008 - 22:47 Por Ana Fonseca Pereira

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UM ano depois da cimeira, as organizações da sociedade civil quiseram apurar que compromissos foram assumidos UM ano depois da cimeira, as organizações da sociedade civil quiseram apurar que compromissos foram assumidos (Enric Vives-Rubio (arquivo))
Há um ano, Portugal organizava uma cimeira que pretendia “virar a página nas relações entre Europa e África”. Esta terça-feira, o Governo português, o Parlamento, media e organizações da sociedade civil responderam em tribunal pelo que acusação considerou ser o incumprimento dos objectivos fixados em Dezembro de 2007, num julgamento “simbólico” que, escrutinou entre outros temas, as políticas de imigração e as ajudas ao desenvolvimento.

O “Tribunal da Consciência”, uma iniciativa da plataforma “Eu Acuso”, assumiu uma solenidade próxima de uma sala de audiências e, durante várias horas, advogados de acusação esgrimiram argumentos com a defesa, em torno de sete acusações relativas aos compromissos assumidos na cimeira UE-África, num “julgamento” presidido pelo juiz desembargador Eurico Reis.

A imigração era apenas um dos tópicos em escrutínio, mas a presença do director do SEF, Jamela Palos, como único representante oficial do Governo (Parlamento e os media estiveram apenas representados por advogados oficiosos), acabou por dar relevo ao tema. A plataforma, que reúne 13 organizações da sociedade civil, acusa Portugal de “não responder às causas estruturais das migrações”, não levar em conta “as obrigações de protecção internacional de refugiados” e de, ao abrigo da Directiva de Retorno, se preparar para deter migrantes “por tempo, com fundamento e condições não razoáveis”.

Na resposta, Jamela Palos argumentou que as “migrações constituíram uma das grandes prioridades da presidência portuguesa” e que desde a cimeira UE-África, Portugal “tem-se empenhado nos compromissos assumidos”. Nos seus argumentos, e mais tarde num comunicado de 47 páginas enviado às redacções, o director do SEF negou que o combate à imigração ilegal ponha em causa os direitos humanos de imigrantes e refugiados, recordou os contactos mantidos no último ano com países africanos e sublinhou que em vários Estados-membros o prazo de detenção de imigrantes ilegais é superior aos 18 meses previstos pela Directiva de Retorno, acrescentando que Portugal “vai manter as garantias que constam da lei portuguesa”, que prevê um período máximo de 60 dias.

Verbas para a cooperação

No domínio da cooperação, o Governo foi acusado de esquecer os compromissos que assumiu com África, ao reduzir, no orçamento para 2009, as verbas disponíveis para esta área “em cerca de 20 milhões de euros” por comparação com 2008. O mesmo incumprimento foi apontado na ajuda pública ao desenvolvimento, com a qual tem sido gasto cerca de “0,20 por cento do rendimento nacional”, o que “coloca Portugal no penúltimo lugar do comité da OCDE”.

A sentença será divulgada esta quarta-feira de manhã na Fundação Mário Soares, mas o jornalista David Borges, um dos seis jurados que colaboram com o juiz na elaboração do acórdão, sublinhou já hoje que “faltou África no banco dos réus”, pois a parceria celebrada em Lisboa envolve tanto a UE como o continente africano “e há assuntos que só os dirigentes africanos podem resolver”.

Fátima Proença, que assumiu a defesa das organizações da sociedade civil, sublinhou que iniciativas como este “Tribunal da Consciência” são um “símbolo” de iniciativas inovadoras para a mobilização da opinião pública para os temas do desenvolvimento.





Tribunal é uma iniciativa para mobilizar opinião pública

A sentença será uma surpresa. Quem o diz é Cláudia Pedra, coordenadora do “Tribunal da Consciência” realizado na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, sublinhando que toda a iniciativa foi feita “com muita independência”.

As seis acusações – relativas aos temas da Cooperação e Desenvolvimento; Objectivos do Milénio; Migrações; Igualdade de Género; Governação e Direitos Humanos; Segurança Alimentar – foram preparadas pela plataforma “Eu Acuso” e peritos externos, explicou a coordenadora, sublinhando que “todos os intervenientes tiveram acesso à mesma informação”.

Após deliberação conjunta de juiz e jurados – segundo o sistema de júri previsto pela legislação portuguesa –, o acórdão da sentença será tornado público esta quarta-feira, na fundação Mário Soares, e Cláudia Pedra não faz previsões: “podem ser todos considerados culpados ou inocentes”.
Em caso de condenação, os visados são instados a adoptar medidas para garantir a concretização dos compromissos assumidos na cimeira. Ainda assim, Francisco Lima da Costa, investigador do Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa, e um dos jurados convidados, disse que era importante que esta iniciativa “produzisse resultados”, nomeadamente ao convencer os responsáveis a “fazer uma avaliação dos objectivos fixados”.

A coordenadora explica que o tribunal, que culmina um ano de actividades da plataforma “Eu acuso”, visou promover o envolvimento da sociedade civil: “Não queríamos mais um debate com os mesmos especialistas e as mesmas pessoas na assistência”, “queríamos que quem estivesse em casa pensasse que seria uma oportunidade para saber o que foi feito com os compromissos assumidos” em 2007. Um objectivo que, garantiu, foi cumprido, já que a plateia estava “cheia de caras novas”.

A.F.P.




Comunicação social no banco dos réus



Apesar de não ter sido signatária da declaração de Lisboa, acordada na cimeira UE-África, e de não ter participado no fórum da sociedade civil realizado em Novembro de 2007, a comunicação social portuguesa esteve no banco dos réus do “Tribunal da Consciência”.

A plataforma explica, na acusação dirigida especificamente contra os media, que as relações “com outros países ou outros povos que não pertencem ao mundo chamado desenvolvido” “não encontram espaço na agenda” noticiosa, num sector onde a lógica empresarial e as influências políticas se fazem sentir cada vez mais.

A acusação sustenta ainda que “a simplificação do mundo através de imagens em tempo real” podem conduzir a estereótipos e alega que “sinais de xenofobia e de desconfiança ligados à imigração” observados na sociedade estão associados à forma como a imprensa aborda temas complexos.

A plataforma pede, por isso, que a comunicação social seja “condenada” a transformar a sua agenda e a assumir as suas responsabilidades sociais, nomeadamente ao impedir “a marginalização de pessoas ou territórios” e ao contribuir para o respeito dos direitos humanos.
A.F.P.

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t

Africa eh desde ha 50 anos cenario de uma limpeza etnica de dimensao continental onde as populacoes ...

Sousa da Ponte

11.12.2008 11:43