Haitianos dispostos a tudo para sobreviver

Port au Prince: O que já foi uma cidade

19.01.2010 - 08:24 Por Paulo Moura, em Port au Prince

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Na cidade uns procuram o que perderam. Outros o que nunca tiveram Na cidade uns procuram o que perderam. Outros o que nunca tiveram (Carlos Barria/Reuters)
Destruição. Gritos. Silêncios. Correrias. Lixo. Catanas. Saques. Helicópteros. Cheiro a morte. Amálgama. Port au Prince, cinco dias depois do terramoto.

Amálgama. É essa a primeira imagem. Amálgama. A cidade está esfarelada e decomposta. Dissolvida. Os elementos arrancados dos seus compostos e depois misturados. Sapatos com pedaços de ferro. Carros espalmados em paredes de casas. Ecrãs de televisão com comida podre. Amálgama, traduzida na língua dos pesadelos.

Um cadáver no passeio, coberto de moscas. Montanhas de lixo. Cheiro a carne podre misturado com carne queimada. Misturado com cheiro de lixo e pó. Mistura de pó e fedor a cadáver. Fumo, gases de borracha a arder. Mistura de cheiros quentes, orgânicos e cheiros gelados. Mistura de coisas humanas e coisas artificiais, metálicas, tóxicas.

Amálgama horrível de cheiros e sons: os helicópteros a sobrevoar as ruas, gritos, vozes secas, ásperas, e mulheres a cantar, em rituais desesperados, pelos escombros. Mas sobretudo silêncios. Pessoas caladas, vagueando pelas ruas, apressadas, como se soubessem para onde iam. Como se a sua casa ainda existisse, o seu trabalho, os seus amigos. A cidade está atarefada, como se ainda existisse. As pessoas caminham como se fossem para o emprego, ou para a escola, mas vão procurar os seus mortos. Correm como se fossem ao mercado, mas vão em busca de coisas para roubar. Uns, comida e água para sobreviver. Outros querem mais. Uns procuram o que perderam. Outros o que nunca tiveram.

O rapaz guarda a catana no interior do casaco e corre com um riso triunfante, aos tropeções entre os pedaços de betão e barras de aço torcido espalhados na rua, com um pacote de biscoitos na mão. O assalto é organizado de forma rápida e eficaz: alguns membros do gang bloqueiam aquele pedaço de rua, aos gritos, exibindo catanas, facas, tesouras e todo o tipo de objecto contundente e aguçado que conseguiram arranjar, enquanto outros, em fila, trepam pelos escombros do supermercado destruído, esgueiram-se por uma fenda sinistra e saem por outra com o que apanharam. Neste caso, a loja chama-se "Authentic". "Articles diverses", diz numa placa que sobreviveu, rasgada a meio como uma folha de papel.

É uma rua comercial. Havia lojas de um lado e de outro, um grande mercado, vários edifícios altos, de betão, que albergavam empresas. Tudo desfeito como farinha. Um grande armazém é agora uma massa de destroços com um buraco por onde se pode penetrar: vários homens descarregam ordeiramente caixotes para um camião, no meio da balbúrdia geral. Dois buldozers desmontam aos poucos o puzzle do que foi um edifício de escritórios. Os pedregulhos e massas e betão movem-se e cedem com a acção das grandes pás das máquinas, mas isso não afasta de cima dos escombros o enxame de saquadores.

Dispostos a tudo
Jacob, de 39 anos e olhos vidrados de horror e espanto, dorme na rua, num campo improvisado, com algumas centenas de pessoas. No momento do terramoto, ia deitar-se, para dormir uma sesta. A mulher e as duas filhas, gémeas de 11 anos, não estavam em casa. Quando tudo começou a abanar, Jacob não percebeu logo o que se passava, mas teve o instinto de fugir. Mal saiu, a casa desmoronou-se, tal como toda a fila de edifícios da rua. "Foram alguns segundos. Tudo ficou no chão, esmagado, de repente. Perdi tudo. A casa, todos os meus bens." Mas a família sobreviveu. A mulher e as filhas estão agora com familiares. Jacob está no campo de desalojados com um amigo, Ivan. Estão prontos para a acção. Dispostos a tudo para conseguir mantimentos para a família, como num mundo primitivo.

A casa de Ivan, por milagre, não caiu. Está aparentemente intacta mas ele acha que está corroída por dentro. O que se vê é apenas uma fachada de pó, que a qualquer momento vai implodir. Não tem coragem de entrar. Muitas casas não caíram logo, mas nos dias seguintes, subitamente. "O nosso país não estava preparado para uma catástrofe", diz ele. "Noutros lugares, há já um planeamento, na forma como as casas são construídas. Aqui, estávamos muito vulneráveis. Demasiado vulneráveis."

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Comentário + votado

dêem pelo menos a logistica a outros que a façam

Neste momento o que mais confusão faz, até nem é a ocupação silenciosa e imperial dos americanos. O ...

Vitor

19.01.2010 12:31

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