Poeta mexicano Javier Sicilia perdeu o filho e as palavras

06.04.2011 - 21:46 Por Isabel Gorjão Santos
Juanito foi encontrado morto dentro de um carro, a 90 quilómetros da Cidade do México. Tinha 24 anos. O pai, o poeta mexicano Javier Sicilia, despediu-se dele e da poesia. Nesta quarta-feira houve manifestações em mais de 30 localidades do México para gritar “Nem mais um morto!”.
Em Texmico, a 90 quilómetros da Cidade do México, passa uma auto-estrada que leva a Acapulco. Foi aí que, a 28 de Março, as autoridades mexicanas descobriram sete pessoas mortas a tiro, dentro do carro onde foi deixada uma mensagem com as iniciais do cartel do Golfo, um dos vários que tem espalhado a violência no país.
Seriam mais sete mortos no país, a juntar às mais de 34 mil vítimas da violência ligada ao narcotráfico que foram mortas no México desde 2006, quando o Presidente Felipe Calderón subiu ao poder e mobilizou o Exército para combater os cartéis. Mas desta vez uma das vítimas era Juan Francisco Sicilia, de 24 anos, filho do escritor e poeta mexicano Javier Sicilia, que se despediu do filho e da poesia e apelou a uma mobilização nacional contra a violência.
“O mundo já não é digno da palavra, não posso escrever mais poesia... A poesia já não existe em mim”, escreveu Javier Sicilia, que dedicou o seu último poema a Juanito. Esta quarta-feira foi recebido no palácio de Los Pinos por Felipe Calderón, escreveu uma carta aberta aos políticos e aos criminosos e pediu aos mexicanos para saírem à rua.
Segundo o blogue Nuestra Aparente Rendición da escritora Lolita Bosch, que nasceu em Espanha mas vive há muitos anos no México, houve manifestações em 32 localidades do México e noutras 13 cidades estrangeiras. E se Sicilia disse que nunca mais escreverá poesia, Lolita Bosch defendeu que “agora mais do que nunca os mexicanos têm de levantar a voz”. E explicou: “O medo já nos ganhou, agora só nos resta a palavra”.
As principais manifestações estavam previstas para esta quarta-feira ao final do dia, em Cuernavaca, cidade próxima do local onde Juan Francisco Sicilia foi assassinado, e na Cidade do México. Foram convocadas por várias organizações da sociedade civil e sindicatos que pedem o fim da violência.
Só desde o início do ano já houve no estado mexicano de Morelos, cuja principal cidade é Cuernavaca, mais de 80 homicídios, cinco vezes mais do que no primeiro trimestre do ano passado. E em Ciudad Juárez, a cidade mais violenta do mundo excluindo os cenários de guerra, foram mortas cerca de 3100 pessoas em 2010.
Desta vez, no entanto, a morte de Juan Francisco Sicilia foi noticiada em vários jornais. O seu pai escreveu artigos na revista “Proceso” em que denunciou “a corrupção das instituições judiciárias e a sua cumplicidade com o crime” e criticou a guerra ao narcotráfico de Calderón que mobilizou 50 mil soldados para combater os cartéis e que, para Sicilia, foi “mal concebida, mal feita e mal dirigida”.
O escritor estava na Finlândia quando recebeu a notícia da morte do filho e nesta quarta-feira prestou homenagem a “Juanito” e aos seis amigos que o acompanhavam. Prometeu silêncio com um último poema intitulado “O mundo já não é o mundo da palavra”.


