Líderes assumiram que "o multiculturalismo falhou" e usam retórica da extrema-direita

Podemos culpar Sarkozy, Merkel e Cameron pelo clima que provocou atentados de Oslo?

31.07.2011 - 13:41 Por Clara Barata

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A adopção pelos líderes europeus de medidas de intolerância da imigração ajuda a criar um clima de intolerância A adopção pelos líderes europeus de medidas de intolerância da imigração ajuda a criar um clima de intolerância (Wolfgang Rattay/REUTERS)
Os atentados terroristas do norueguês Anders Breivik, que mataram 76 pessoas, serão uma chamada à responsabilidade dos líderes europeus que, sobretudo desde os atentados do 11 de Setembro nos Estados Unidos da América, se renderam à retórica anti-imigração e islamófoba dos partidos da Nova Extrema-Direita, em ascensão por toda a Europa? A resposta aproxima-se a passos largos do "sim".

"O discurso da direita conservadora tornou-se mais duro nas questões da identidade nacional e da imigração", disse ao PÚBLICO o politólogo francês Jean-Yves Camus, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, especialista em nacionalismos e extremismos na Europa. E isso aconteceu, sublinha, "sem haver relação com a crise [económica e financeira]. Não há extrema-direita a sério em Portugal nem na Irlanda, e a Noruega é rica."

Esta mudança nos discursos dos políticos ditos mainstream, não extremistas, os que participam plenamente no jogo da democracia, "está ligada ao contexto do pós-11 de Setembro de 2001 e à impressão de que a Europa está em guerra contra a imigração e o Islão", sublinha Camus, por e-mail.

Nas 1500 páginas do seu manifesto, que são ao mesmo tempo um diário e um manual de instruções para uma revolução que impeça a cultura e a civilização europeias de serem subjugadas pelas cedências dos "marxistas" ao multiculturalismo - uma expressão idêntica a Islão e a imigração, na interpretação de Breivik - encontram-se ideias que soam a loucura, mas também outras que não andam assim tão longe das que temos ouvido na boca dos políticos europeus.

Integração e racismo

Há muitos exemplos recentes no discurso e na prática política europeia da recusa de aceitar imigrantes, sejam eles muçulmanos ou de uma outra Europa, não reconhecida como a "Ocidental". Se não vejamos: a expulsão dos migrantes romenos de França e a sugestão recente, por Madrid, de que poderia excluir imigrantes romenos do mercado de trabalho espanhol, já a partir de Agosto; os barcos que naufragam no Mediterrâneo carregados de gente como se fossem formigas tragadas pelas ondas, amontoando-se na ilha de Lampedusa, com a Itália a reclamar ajuda da União Europeia e os outros 26 países a tentarem virar-lhe as costas (só na primeira metade deste ano, 25 mil imigrantes provenientes da Tunísia e da Líbia chegaram às costas italianas); a imposição pela Dinamarca de mais controlos fronteiriços nas alfândegas, para manter afastados do país "criminosos da Europa de Leste e migrantes económicos ilegais".

Mas há de facto motivos para esta ansiedade em relação à chegada de imigrantes e à perda da identidade europeia, o afogamento da cultura e da civilização europeias pelo Islão que tanto atormentavam Breivik (e não propriamente da perda da identidade norueguesa em si)?

"A globalização apaga as referências culturais e identitárias de muitos europeus. Vêem chegar muitos imigrantes não europeus, mas há também uma maior mobilidade das pessoas, a mundialização da informação, o sentimento de que o passado era mais estável, mais positivo", diz Jean-Yves Camus.

Alana Lentin, socióloga política da Universidade do Sussex (Reino Unido), tem um pensamento mais crítico sobre esta inquietação. Para ela, serve mais como uma forma de exclusão: "A ideia de que existe algo chamado "cultura europeia" que se está a perder é um anátema", responde, por e-mail, esta especialista em estudos do racismo na Europa.

"Primeiro, não existe uma cultura comum que una os europeus - algo que pudemos constatar na reacção à crise da dívida soberana, quando a maior parte dos cidadãos demonstraram não sentir que tinham de fazer sacrifícios por outros países", diz. "E depois há toda a retórica que põe a ênfase na integração dos imigrantes. Mas integrar-se em quê, quando nem nós próprios sabemos o que nos une ou nos define?", interroga a investigadora. "Este discurso sobre a integração só serve para mascarar a incapacidade dos políticos para declararem abertamente sentimentos racistas, embora actuem de formas racistas", afirma.

Responsabilizar políticos

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01.08.2011 03:27

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