Um surto de peste pneumónica, doença provocada pela bactéria Yersinia pestis, levou ao isolamento pelas autoridades de saúde de uma localidade no noroeste da China, chamada Ziketan, de maioria tibetana, com dez mil habitantes. Há já dois casos mortais registados.
Segundo a BBC, as autoridades, que já tinham dado conta do primeiro caso mortal no fim-de-semana, estão agora a tentar detectar todos os que contactaram com este segundo indivíduo, para tentar controlar a epidemia. Existem dez casos de pessoas doentes devido a esta bactéria. O isolamento da localidade vai manter-se.
Michael Bristow, correspondente da BBC na China, descreveu este caso do surto de peste em Ziketan como exemplar, uma vez que as autoridades chinesas estão a disponibilizar toda a informação sobre o caso e a tratar o facto com uma abertura fora da política que normalmente costumam adoptar. Este será o terceiro caso de surto de peste na mesma província, de Qinghai, nos últimos dez anos.
Jaime Ninna, médico e coordenador do departamento de doenças infecciosas do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge refere o alto nível de mortalidade da doença: “É uma doença grave, se não for tratada, uma em cada duas pessoas acaba por morrer”. E o especialista explica ainda que tudo começa com uma picada de pulga, vector da doença entre roedores e o homem, responsável pela transmissão da primeira fase desta peste, a que se chama peste bubónica: “O bacilo instala-se no gânglio linfático da virilha, se a picada da pulga for na perna, ou de uma axila, se a picada for na mão ou no braço.”
O gânglio incha, a que se dá o nome de bubão, e daí o nome da peste bubónica. “Muitas vezes o gânglio não consegue suster a capacidade invasiva da bactéria e espalha-se pelo sangue, fase a que se dá o nome de septicemia. Pode-se então alojar no pulmão, provocando uma pneumonia, ou seja, a peste pneumónica”, diz o especialista, frisando que, “provavelmente o primeiro caso foi de peste bubónica”. Se a pessoa morrer antes de contrair a pneumonia, a peste bubónica morre com ela, afectando apenas o indivíduo. Mas é quando se desenvolve a pneumonia que o contágio entre indivíduos ocorre por inalação de partículas de respiração entre o indivíduo contaminado e os restantes.
A peste, bubónica ou pneumónica é normalmente associada a uma grande mortalidade ocorrida durante a idade média: “Na segunda grande epidemia de peste na Europa, entre 1348 e 1349 morreu um terço da população europeia. Coincidiu com a chegada da ratazana cinzenta, ou de esgoto, à Europa. Não era conhecida a acção da pulga como vector, por isso não foi eficazmente contido o problema”.
Mas Jaime Ninna lembra que Portugal ainda sofreu um surto de peste bubónica no início do século XX, no Porto: “Foi uma epidemia tratada precisamente pelo médico Ricardo Jorge”, diz sobre o patrono do Instituto Nacional de Saúde. E que os casos notificados pela Organização Mundial de Saúde são entre mil a três mil, espalhados pelo mundo, sendo que a maioria deles é nos Estados Unidos: Não será por terem mais casos mas por notificarem mais”.
O especialista conclui lembrando que não são só estes casos ainda existentes de peste que chamam a atenção sobre o perigo que representa a bactéria Yersina pestis: “A peste está a ser muito estudada porque é um elemento importante quando se fala em guerra biológica. A bactéria só pode ser cultivada em laboratório de segurança máxima, nível quatro”.
Notícia corrigida às 13h24


