Peru suspende polícias que “enganaram o público” com história de gangue que vendia gordura humana

02.12.2009 - 09:58 Por PÚBLICO
As autoridades peruanas suspenderam o principal investigador sobre o crime organizado no país, Eusebio Felix Murga, considerando que este tinha “enganado o público” ao declarar, há cerca de duas semanas, que fora desmantelado um gangue que teria supostamente matado dezenas de pessoas para vender a sua gordura humana a fabricantes de cosméticos. A história não passara de uma mentira.
Expressando-se “envergonhado”, o chefe das forças policiais peruanas, Miguel Hidalgo, lamentou ontem à noite a forma como este caso “afectou a imagem e respeitabilidade da polícia”.
Numa muito aparatosa conferência de imprensa, a 19 de Novembro passado, os agentes sob a autoridade de Felix Murga apresentaram aos jornalistas duas garrafas contendo o que descreveram como sendo gordura humana, apoiando-se em resultados laboratoriais. Narraram então que tinham detido quatro pessoas nesta investigação, que teria sido lançada quatro meses antes, todas elas ligadas a um gangue ao qual a polícia atribuía a morte de pelo menos 60 pessoas na província rural de Huanuco.
Chamaram-lhes “os pishtacos de Huallaga” – numa referência à criatura mitológica peruana Pishtaco, um vampiro que ataca as vítimas para se alimentar da sua gordura.
Foi então apresentada a tese de que os homicídios eram cometidos com o objectivo de extrair a gordura dos cadáveres, em laboratórios rudimentares instalados naquela região situada entre a selva e os picos andinos, para depois vender a substância num mercado negro para a indústria de cosmética onde teria o valor de uns 15 mil dólares por litro.
A gordura seria armazenada em garrafas de água e de refrigerantes, tendo as duas mostradas na conferência de imprensa sido apreendidas aos suspeitos quando foram detidos em Lima.
Mas ao fim de uma semana em que cada vez mais dúvidas se consolidavam em torno daquela história, as autoridades vieram apontar que toda a investigação fora “sabotada” e “mal feita” – não terá havido afinal mais do que uma vítima do suposto gangue, que estava sim ligado ao tráfico de cocaína, e que as garrafas de gordura humana, cuja proveniência não foi ainda comprovada, era utilizada pelos detidos para “intimidar os rivais”.
A polícia de Huanuco, de resto, negou existirem indícios de dezenas de mortes, como as que foram apresentadas pela equipa de Feliz Murga, corroborando apenas um dos casos de pessoas dadas como desaparecidas naquela região, fortemente dominada pelo tráfico de droga e violência entre gangues rivais.

