Perguntas e Respostas sobre a última guerra israelo-palestiniana

29.12.2008 - 19:42 Por Margarida Santos Lopes
Em 2005, Ariel Sharon ordenou a retirada unilateral do exército e dos colonos da Faixa de Gaza no Verão de 2005, mas a ocupação do território mais densamente povoado do mundo, sem interesse estratégico ou religioso para o Estado judaico, nunca terminou completamente.
Israel continua a controlar todos os acessos por terra, mar e ar a este paupérrimo pedaço da Palestina – 362 quilómetros quadrados habitados por 1,5 milhões de pessoas – onde nasceu o Hamas e eclodiu a primeira Intifada. Foi aqui que, no sábado, Israel desencadeou uma guerra com uma intensidade que não se via desde a dos "seis dias", em1967. O primeiro bombardeamento durou três minutos e 40 segundos. Sessenta caças F-16 destruíram 50 alvos. Num só dia, foram mortas mais de 200 pessoas (número que continua a subir) e feridas cerca de mil.
Quem começou as hostilidades?
A 4 de Novembro deste ano, Israel assassinou seis membros do Hamas, violando uma "tahdiyeh" ou trégua, que estabeleceu (mas nunca reconheceu publicamente) com o movimento islâmico, sob mediação egípcia, a 17 de Junho. O Hamas intensificou o lançamento de mísseis e morteiros sobre cidades israelitas – em sete anos, estes disparos mataram pelo menos 20 civis. Israel retaliou sujeitando a Faixa de Gaza a um duro bloqueio económico – com restrição de entrada de alimentos e medicamentos e cortes de combustível –, agravando uma situação humanitária que o Banco Mundial e ONG descreveram como "catastrófica". Khaled Meshaal, o chefe do Hamas exilado em Damasco, justificou a decisão de revogar a "tahdiyeh", a partir do dia 18 de Dezembro, invocando as execuções dos seus operacionais e o cerco a que Gaza está sujeita. Segundo o diário hebraico "Ha’aretz", os preparativos para a vasta operação militar em curso começaram há seis meses – quando o Egipto mediava novamente negociações para a prorrogação da trégua – o Hamas exigia como condição o levantamento do bloqueio. Na altura, o ministro israelita da Defesa, Ehud Barak, terá ordenado aos serviços de espionagem que identificassem todos as instalações das "forças de segurança" do Hamas e de outros grupos radicais em Gaza.
Porquê atacar agora?
Para alguns analistas, Israel quis aplicar um duro golpe ao Hamas, ainda quem sem a ambição de o eliminar, como tentou, mas fracassou, com o Hezbollah no Líbano, em 2006. Também quis, escreveu o jornal francês "Libération", mudar as regras do jogo antes de uma "desacreditada Administração Bush" sair de cena e Barack Obama entrar na Casa Branca. Decisivo foi também o facto de Israel estar em campanha eleitoral, e de as sondagens beneficiarem o líder da oposição direitista, Benjamin Netanyahu. O facto de Tzipi Livni, a ministra dos Negócios Estrangeiros e líder do Kadima, e Ehud Barak, o chefe trabalhista, terem aparecido juntos numa conferência de imprensa como os artífices desta ofensiva serviu para passar a mensagem de que serão "implacáveis com os terroristas". Um passado recente tem mostrado, porém, que este tipo de crises favorece mais os "duros" que os "pragmáticos" – em 1996, Netanyahu derrotou Shimon Peres, apesar de ter sido durante o governo do sucessor de Yitzhak Rabin que o Shin Beth assassinou o "mestre bombista" do Hamas, Yahya Ayyash, e de ter sido levada a cabo a "Operação Vinhas da Ira" no Líbano, que culminou num massacre de mais de 100 civis na cidade de Qana. Do lado palestiniano, também o Hamas estava interessado agora em mudar o "statu quo". Os disparos de "rockets" foram lidos como "uma fuga para a frente". Isolado desde que derrubou a rival e secular Fatah no chamado "conflito de irmãos", em Junho de 2007, incapaz de aliviar o sofrimento da população de Gaza, achou que era altura de tentar alargar a sua esfera de influência à Cisjordânia, abrindo desde já a campanha para as presidenciais antecipadas de 9 de Janeiro próximo.

