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Perfil: Khadafi voltou a ser um “Mad Dog”

25.02.2011 - 12:05 Por Margarida Santos Lopes

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Foi a 1 de Setembro de 1969 que Khadafi derrubou a realeza Foi a 1 de Setembro de 1969 que Khadafi derrubou a realeza (Mohamed Nureldin Abdallah/Reuters)
O coronel que governa a Líbia há mais de quatro décadas deixara de ser um revolucionário anti-imperialista para se tornar aliado do Ocidente contra o terrorismo. Com a repressão sangrenta de uma revolta popular, regressou aos tempos tenebrosos que levaram Reagan a chamar-lhe “o cão raivoso do Médio Oriente”

Em 2009, seis dias de extravagantes festividades, que incluíam um "show de mil camelos e 40 balões de ar quente", assinalaram quatro décadas de poder de Muammar Khadafi e a transformação da Líbia de pária em parceiro de europeus e americanos.

Na altura, a analista Molly Tarhuni, do Royal Institute of International Affairs (Chatham House), em Londres, descrevia as cerimónias como “um ponto de viragem", ou “a prova de que Khadafi é um sobrevivente e que muitos o subestimaram”. Ele pode ser um excêntrico, salientava Tarhuni, numa entrevista ao PÚBLICO, por telefone, mas o Ocidente precisa dele. “Porque a Líbia possui reservas confirmadas de petróleo que ascendem a 41,5 mil milhões de barris e de gás natural num total de 1490 biliões de metros cúbicos de gás natural entre as dez maiores do mundo. A sua importância económica, política e de segurança não se alterou em 40 anos.”

Não admira o sentimento de embaraço de um Ocidente com lucrativos contratos com a Líbia perante a sanguinária repressão de milhares de manifestantes que, na sequência das revoluções contra Ben Ali, na Tunísia, e de Hosni Mubarak, no Egipto, se viraram contra o seu tirano. Ao contrário dos tunisinos e dos egípcios, porém, os líbios estão a pagar um preço muito mais elevado pela sua insurreição: o número de mortos ultrapassou os 2000, segundo diversas estimativas. Khadafi prometeu que lutaria até à última bala, e assim está a fazer, com a ajuda dos seus batalhões tribais (o exército, repartido por clãs subornados, nunca foi uma instituição nacional) e dos mercenários africanos que contratou.

“ Khadafi está divorciado da realidade”, disse ao PÚBLICO, numa entrevista por telefone, Diederick Vandewalle, um dos maiores especialistas na Líbia, professor associado da Faculdade de Dartmouth, (New Hampshire, EUA). “Quando se é ditador durante 42 anos, já ninguém nos diz o que é a realidade, com medo de nos contradizer. Os seus últimos discursos mostraram bem o quanto ele está distante da realidade”, acrescentou o autor de Libya Since Independence: Oil and State-building e Qadhafi’s Libya (1969-1994).

Para manter o poder, beduíno do “Livro Verde” (um guia mesclado de socialismo e islamismo) está a massacrar a sua própria população; já perdeu controlo da parte oriental do país (onde estão os poços de petróleo) e de sectores importantes de Trípoli, a capital; deixou também de contar com o apoio de tribos poderosas, como a Warfalla, que o ajudou a derrubar a monarquia em 1969.

O “Guia da Revolução

Foi a 1 de Setembro de 1969 que Khadafi, membro da tribo Kadhadhafa, um capitão do Exército de 27 anos, tratado pelos amigos como “al-jamil” (o bonitão), derrubou a realeza e instituiu uma Jamahiriya (“estado das massas”) Árabe Líbia Popular Socialista. O rei Idris al-Sanussi estava em tratamento na Turquia e não regressou. O príncipe herdeiro, o sobrinho Hassan, foi obrigado a abdicar.

No dia 8, o chefe do novo governo era Sulayman al-Maghribi, um dos oficiais golpistas, mas, no dia 13, Khadafi, formado numa academia militar depois de interrompido um curso de Geografia na Universidade de Bengasi, já era o "Líder Irmão" e "Guia da Revolução", os únicos títulos que reteve, a par da patente de coronel (recusou ser promovido a general).

A "revolução socialista", sem sangue, foi apresentada por Khadafi, filho de pastores nómadas do deserto de Sirta, como reacção contra a corrupção da dinastia Sanussi e a sua "subserviência aos imperialistas" desde a independência, em 1951. Uma das primeiras decisões que tomou foi ordenar o encerramento das bases do Reino Unido e dos EUA, e a retirada das tropas. Seguiram-se expropriações e nacionalizações de outros interesses estrangeiros.

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