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RDA

Para onde vão os países quando deixam de existir?

09.11.2009 - 20:04 Por Alexandra Prado Coelho

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Vinte anos depois da queda do Muro, começam a surgir outras visões da História Vinte anos depois da queda do Muro, começam a surgir outras visões da História (Fabrizio Bensch/Reuters)
Alguns fazem filmes sobre o país que desapareceu e o novo que surgiu. Outros fazem perguntas: quanta RDA ainda tenho dentro de mim? Vinte anos depois da queda do Muro, começam a surgir outras visões da História. Juntando imagens e memórias, muitos alemães de Leste ainda procuram um sentido para o que aconteceu.

No dia 3 de Outubro de 1990, um país no centro da Europa desapareceu. Chamava-se República Democrática Alemã, os portugueses chamavam-lhe RDA, os seus habitantes chamavam-lhe DDR (Deutsche Demokratische Republik). Tinha 40 anos. Muitas pessoas nasceram e viveram nesse país e durante muito tempo era essa a sua realidade (na maior parte dos casos, a única que conheciam). Nesse país havia um muro e do outro lado havia outro país com um nome parecido, República Federal Alemã (RFA). Onze meses depois da queda do Muro, a RDA desaparecia. O que sentem as pessoas que vêem o seu país desaparecer?

O documentarista Thomas Heise nasceu em Agosto de 1955 em Berlim-Leste, RDA. Durante os anos 80 fez vários filmes que nunca puderam ser vistos no seu país. Filmou muito durante esse tempo e continuou a filmar nos meses que antecederam a queda do Muro. Filmou, por exemplo, a gigantesca manifestação em Alexanderplatz, Berlim-Leste, a 4 de Novembro de 1989. "A câmara foca o público, nunca os oradores, e vê-se como as pessoas estão atentas, interessadas. Havia uma energia que vinha de baixo para cima", explica Heise em Lisboa, onde esteve há poucas semanas para apresentar no festival de documentários DocLisboa o seu filme Material, no qual junta pedaços de material que sobrou dos seus filmes anteriores, planos nunca utilizados, projectos inacabados. Nessas imagens reunidas, quase sem comentários ou contextualizações, encontrou um sentido, encontrou a sua história da Alemanha. "O material continua incompleto. É o que eu apanhei, o que se manteve importante para mim. O meu retrato", explica num texto de apresentação.

"Há ali [nas imagens das manifestações] pessoas que falam pela primeira vez na vida em frente a outras", conta. Quando mais tarde mostrou essas imagens a pessoas que tinham participado naquela manifestação, elas diziam que "não se recordavam que tinha sido assim, que as imagens não correspondiam às recordações delas, e que já não se lembravam de ter sentido tanta liberdade". E no entanto as imagens estavam ali e contavam uma história. Mostravam, segundo Heise, "a realidade do possível" - aquele momento, curto, em que "se consegue ver a utopia".

Que utopia era essa? A de que "o povo iria ser soberano". O que as pessoas pediam era o fim de um regime, o comunismo na RDA, mas não o fim de um país. "O que é curioso é que é a própria queda do Muro que vai acabar com essa manifestação da vontade das pessoas", diz Heise, que nas quase três horas de Material conta uma história da(s) Alemanha(s) desde o final dos anos 80 até 2008 sem nunca mostrar imagens da queda do Muro. Porque, para muitos alemães de Leste, aquilo que outros viveram como uma enorme festa - e que o mundo viu como uma enorme festa - foi o princípio do fim.

"Nós não dizíamos "queremos fazer parte da RFA", o que queríamos era ter uma nova sociedade. E o mais irónico é que a queda do Muro acabou com a utopia de criar uma nova sociedade no espaço da antiga RDA." Quando olha para as imagens que não usou no seu filme mas que são as icónicas da noite de 9 de Novembro, o que Heise vê são "alemães ocidentais a dançar em cima do Muro".

Foi então um equívoco, a reunificação da Alemanha, um dos grandes acontecimentos simbólicos do final do século XX? Os alemães de Leste que invadiram Berlim ocidental passando, aos milhares, pelas aberturas no Muro, e que foram recebidos em festa pelos alemães ocidentais, não se sentiam eufóricos com o que estava a acontecer? Heise insiste na utopia. "Entre Agosto de 1989 e Outubro de 1990 havia [na Alemanha de Leste] uma anarquia estranha em que tudo era possível. Mas se tivessem permitido que isso que se estava a formar aí, e que era novo, continuasse, iria abalar também os fundamentos da RFA."

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Liberdade (cont.)...

Lembrei-me agora se o capitalismo não nos tem feito algo de semelhante quanto ao processo (com ...

CS

11.11.2009 00:56

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