Palestinianos elegem hoje um novo Parlamento

25.01.2006 - 08:08 Por Alexandra Lucas Coelho, PÚBLICO, Gaza
Por cima da porta está escrito: emergência. É uma clínica, mas podia ser uma metáfora. Hoje, os palestinianos vão votar em eleições legislativas. A primeira e única vez que isso aconteceu foi há dez anos. Havia um processo de paz. A promessa de um Estado. Arafat chegara há dois anos do exílio em triunfo. A Fatah dominava. O Hamas era um outsider que não ia a votos.
Hoje, os palestinianos vão votar numas eleições que até à véspera ninguém jurava que iam acontecer. Não há processo de paz. Continua a haver a promessa de um Estado. O primeiro aniversário da morte de Arafat foi uma modesta pompa para pouca gente. A Fatah está dividida em duas, talvez em 20. E o Hamas é candidato ao poder, com mais de 30 por cento de votos nas sondagens e o alarme de americanos e europeus.
Estas são as segundas legislativas, mas na verdade as primeiras em que a Fatah de Arafat, coluna vertebral da Organização de Libertação da Palestina, competirá com os islâmicos do Hamas.
O que é que a sala das emergências tem a ver com isto? É o que dois homens, sentados lá dentro, vão contar.
Estão no único território palestiniano que não tem ocupação israelita no interior, mas à volta. Para chegar a eles, atravessa-se uma Cidade de Gaza tão atulhada de campanha como as cidades da Cisjordânia. Os incontáveis cartazes de uma eleição com mais de uma dezena de partidos. As bandeiras dos grandes flutuando ao vento nos postes, nas janelas, no topo das casas, amarelo Fatah, verde Hamas.
Para meses de caos anunciado, com semanas de tiroteios, bloqueio da fronteira com o Egipto, raptos de estrangeiros, tomadas de edifícios, rockets de Gaza para Israel e assassínios selectivos de Israel para Gaza, é uma terça-feira agitadamente tranquila. A campanha acabou na véspera, não há armas em passeio.
Mas o céu, que amanheceu azul limpo, pesa como antes de uma tempestade. A gigantesca sede das forças de segurança parece um bunker de cimento, rodeada de um muro alto, medida de prevenção para tumultos eleitorais.
Clínica Hamas
A sul da Cidade de Gaza, na zona a que chamam Campos do Meio, está o campo de refugiados de Marazi, 30 mil habitantes. Há uma clínica de assistência médica elementar da UNRWA, a agência das Nações Unidas para os refugiados palestinianos, e depois há esta clínica, num edifício moderno, que tem um poster com Mahmoud Zahar, o líder do Hamas (ver entrevista nestas páginas), colado na porta de entrada.
Algumas mulheres de lenço na cabeça à espera na recepção, sentadas. Nenhuma fila, tudo limpo, retratos das montanhas suíças nas paredes e um retrato um pouco maior da Cúpula do Rochedo, a mesquita que é o ícone de Jerusalém para os palestinianos.
O director clínico é Abdul Fatah, 50 anos, um médico sem bata, que se confunde com o recepcionista, a atender uma chamada. Pede aos visitantes que o esperem na sala de emergências, vazia. E manda chamar o jovem Ashraf Ismail, médico todo de negro, tão jovem que não parece sequer ter metade da idade do director, 25 anos.
Enquanto Ashraf não chega, Abdul informa que esta clínica, fundada em 1991, tem 15 médicos de especialidade (oftalmologia, dermatologia e ortopedia são as mais reforçadas), dois dos quais mulheres, e atende 4 a 5 mil doentes por mês. Nesta área, diz, é aqui que as pessoas vêm para fazer exames avançados, com equipamentos de raio X e ultra-sons que não existem nas redondezas. Para os exames de especialidade pagam menos de dois euros. Para médicos de família e fisioterapia, menos de um. Os medicamentos são a preço de custo, e existem em stock até ao fim de cada mês, "enquanto nos hospitais públicos esgotam a meio". Neste momento funcionam dois andares, mas já foram construídos mais três, para a expansão de serviços de parto, cardiologia, cirurgias.
Ashraf é o responsável pela captação de fundos para os novos projectos da clínica, e a primeira coisa que diz ao entrar é: "As organizações internacionais têm medo de lidar connosco." Ainda ninguém pronunciou a palavra Hamas. "Tentamos fazer um projecto preciso, explicando cada tostão, e recebemos cartas a dizer que não têm dinheiro." Isto aconteceu com organizações americanas. Europeias até agora não apareceram, mas Ashraf crê que "têm mais facilidade em ler os nossos projectos".

