O pai da italiana Eluana Englaro, há 17 anos em coma, acusou o primeiro-ministro de “golpe de teatro” ao fazer aprovar um decreto-lei contra a eutanásia. Numa entrevista publicada hoje pelo diário espanhol El País, Beppino Englaro acusa Sílvio Berlusconi de estar a tentar passar à frente do poder judicial.
“É um golpe de teatro. Só me ocorre dizer que a realidade às vezes supera a fantasia mais fantasiosa”, afirmou. O pai de Eluana refere ainda que quando em 2004 enviou uma carta a Berlusconi a pedir-lhe ajuda não obteve sequer resposta. Agora, diz, o primeiro-ministro pretende sobrepor-se aos juízes, que em Novembro passado, e depois de dez anos de uma batalha judicial, deram luz verde para que Eluana deixasse de ser alimentada. “Quer bloquear a sentença do Supremo”, denuncia.
“Num país civilizado, isto não pode acontecer. Berlusconi enfrentou o Presidente da República para tentar deter a legalidade. Talvez não entenda a divisão de poderes”. Na sexta-feira, o Governo italiano aprovou um decreto-lei para impedir a suspensão da alimentação de pessoas em coma – como está já a fazer, desde há três dias, a clínica onde Eluana está agora internada, em Udine (Nordeste). Mas o Presidente Giorgio Napolitano recusou-se a assiná-lo, levando o Executivo a ameaçar modificar a Constituição e a afirmar o seu direito de governar através de decretos e votos de confiança.
As acusações vêm também da oposição. “Berlusconi confirma que não sabe o que representa a democracia. Pensa poder governar a Itália como se fosse uma das suas empresas”, denunciou Felice Belisario, do partido Itália dos Valores.
“A sua vontade de modificar a Constituição indica que a verdadeira intenção do chefe de Governo é utilizar um caso dramático, como este de Eluana Englaro, contra os equilíbrios institucionais”, diz por sua vez o vice-presidente da Câmara dos Deputados, Pierluigi Castagnetti.
“O caso Eluana está a ser aproveitado por Berlusconi para reequilibrar a seu favor os poderes do Governo e da presidência”, lê-se no editorial do Corriere della Sera. “A campanha mediática da igreja católica mudou a percepção da agonia da jovem mulher e Berlusconi quer aproveitar a onda”.


