São os ovos mexidos a 13 dólares, a noite num hotel a 200 dólares: o Haiti está em plane febre inflacionista depois do sismo de 12 de Janeiro. A comida, as bebidas, o combustível são vendidos a preços recorde e os especuladores esfregam as mãos.
Em Port au Prince, as vítimas do terramoto precisam de tudo – e, sobretudo, dos bens mais essenciais. Consequência lógica: aqueles que conseguiram juntar água, mantimentos ou combustível para vender fazem pequenas fortunas.
“Tinha vários bidons de gasolina em casa antes do sismo. Agora estou a vendê-la pouco a pouco a 400 gourdes (a moeda haitiana, no equivalente a pouco mais de sete euros) por cada quatro litros. Nem pensar em regatear”, afirma Ludovic. E os negócios correm de vento em popa: Ludovic pede o dobro do preço normal.
Mas com a reabertura progressiva dos postos de combustível, os vendedores ambulantes começam a desaparecer.
“Se queremos trabalhar, temos que pagar mais pelo combustível. Mas ao mesmo tempo, acho que podemos ganhar mais dinheiro a trabalhar com todos os estrangeiros que aqui estão na cidade. Está tudo ligado”, filosofa Léonard, um condutor de táxi que espera a vez numa das poucas estações de serviço que estão abertas na capital haitiana.
A inflação é pior nos alimentos e nas bebidas. Os vendedores ambulantes de água e de refrigerantes aumentaram os preços em mais de 100 por cento em relação ao que era cobrado antes do terramoto. Uma garrafa de água potável de 25 centilitros, que custava um gourde vende-se agora a três. O mesmo com os refrigerantes: de dez gourdes passaram para 20.
A subida vertiginosa dos preços atingiu também os cartões telefónicos, os cigarros e o álcool. Os preços mais do que duplicaram.
Corinne vira as costas quando um vendedor ambulante de refrigerantes lhe anuncia o preço da mercadoria. “É evidente que são produtos que foram roubados das ruínas de um qualquer supermercado que ficou meio destruído. E nem sequer estão frescos”, queixa-se.
A tendência é a mesma nos hotéis de Port au Prince, tomados de assalto pelas dezenas de jornalistas chegados de todas as partes do mundo para cobrir a catástrofe. A única diferença é que ao negociar com estes os haitianos não falam em gourdes mas em dólares.
“Na terça-feira [antes do sismo] uma noite custava 70 dólares e desde quarta passou a custar 200”, explica o director de um hotel na capital haitiana, requerendo o anonimato. “Não estamos a roubar ninguém. Prestamos um serviço numa cidade onde já não se encontra esse serviço em mais lado nenhum” justifica-se.
Numa cidade onde 90 por cento dos restaurantes e supermercados estão desmoronados, comer correctamente tornou-se um luxo que se paga caro. Um prato de massa com molho de tomate custa 11 dólares, os ovos mexidos 13, o que coloca Port au Prince, a capital do país mais pobre das Américas, ao mesmo nível de Madrid ou de Roma.
“Nas ruas as pessoas não têm nada para comer. A ajuda humanitária não chega. É preciso muito tempo e dinheiro para conseguir encontrar alimentos desses”, insiste Maurice, chefe do restaurante de um hotel.
A inflação não poupa os transportes. Alugar um táxi com motorista por um dia inteiro custa 300 dólares. Uma fortuna num país onde o salário mínimo diário de um operário ronda os quatro dólares.
“Estou a ganhar muito dinheiro mas isto não vai durar muito. Daqui a uns dias o mundo já se esqueceu do Haiti e vai ser preciso poupar porque praticamente todos os haitianos perderam o emprego”, explica Frédéric Leny, condutor de táxi.



