Outros portugueses recém-chegados ao Brasil e um luso-descendente

29.12.2011 - 07:30 Por Alexandra Lucas Coelho, no Rio de Janeiro
José Castro Solla, 44 anos, advogado de negócios. Veio para o Rio de Janeiro com a família em 2009 e entretanto já teve mais uma filha.
Nasceu em Lisboa, estudou Direito na Universidade Católica e é advogado de negócios desde então. “Aqui no Brasil estou a fazer direito do petróleo, o mercado em que o Rio continua a ser capital.”
Trabalha para a Miranda Correia Amendoeira & Associados, uma sociedade portuguesa com escritórios em vários países lusófonos. Veio dirigir a delegação do Rio de Janeiro, em parceria com um grande escritório brasileiro de advocacia empresarial. “Faço a ligação com os nossos parceiros. Quando fui trabalhar para a Miranda, sabia que poderia ir para fora, isso interessava-me e agradava à minha mulher, que sempre teve experiência de vida no estrangeiro. Tínhamos três filhos, agora já tenho uma quarta, que nasceu em Junho aqui. É carioca.”
Todo o processo de instalação teve as facilidades com que contam os executivos de empresas. “Vim dois meses antes para escolher o apartamento, numa rua tranquila da Gávea.” O bairro com melhor qualidade de vida do Rio de Janeiro, segundo os critérios de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). “É o Rio do verde, tenho tucanos. Não dá para ir a pé à praia, mas vou de bicicleta com os meus filhos.”
Para além das vantagens do bairro, o apartamento pertencera a Cláudio Bernardes, arquitecto e filho do arquitecto Sérgio Bernardes, parceiro de Lúcia Costa e Oscar Niemeyer. José apaixonou-se pelo espaço, amplo o bastante para uma família extensa. Prefere não dizer quanto paga, mas sempre adianta que “é o dobro do que pagava por um apartamento do mesmo tamanho na Rua das Amoreiras, em Lisboa”, que não é uma rua barata.
Na Zona Sul do Rio de Janeiro, os apartamentos tendem a custar o dobro de uma área equivalente em Lisboa. E se estivermos a falar de “um apartamento para um executivo de topo na Vieira Souto”, que é a avenida de Ipanema em frente ao mar, “pode custar 25 mil reais por mês”, ou seja, mais de 10 mil euros de renda. “A sensação é de irrealidade”, reconhece José. “Por isso é que se fala na ideia da bolha, da especulação imobiliária, o que tem muito a ver com a vinda de expatriados, muitos ligados ao petróleo.”
Mas não são só as casas. “A vida no Rio é de caras o dobro da de Lisboa. Muito, muito cara. Tenho notado uma subida muito significativa nos restaurantes, o colégio dos meus filhos aumenta 15% ao ano. Aqui, o que é muito bom não é sequer para a classe média alta. Os restaurantes mais caros são muito, muito caros. Nos clubes, que são uma coisa muito carioca, a entrada custa o mesmo que um apartamento em Lisboa.”
Muitas famílias têm várias empregadas. “Há uma enorme especialização das tarefas e se você procura impor o modelo de uma só empregada não é fácil. A babá é uma coisa estranha. A figura do ascensorista. Há uma enorme mão-de-obra com salários baixos e gente disponível para isso.”
Altos e baixos
Não, a “vida no Rio de Janeiro não é o cartão-postal da praia”, diz José. “Existe um grande cenário bem vendido em todo o mundo, mas por trás do cenário a cidade vive com problemas que nós já não conhecemos há muitos anos, estouros de bueiros no Centro, o que se passa na rede eléctrica. Quando trabalhava na Rio Branco [uma das principais avenidas do Centro] tive de descer a pé de um 28º andar por uma falta de electricidade.”
Mas como é fascinante, o Centro. “O prazer que tive a trabalhar lá! Confuso mas tão interessante, muitas vezes tão mais interessante que a Zona Sul. Obviamente que a alma histórica está no Centro e faz-me impressão que esteja tão abandonado. A Rua do Ouvidor é comparável à nossa Rua Garrett. Às 20h, quando você sai da Rio Branco, por baixo dos prédios há pessoas a dormir e o lixo dos escritórios é amontoado em sacos. Muitos catadores abrem os sacos. Então o espectáculo da Rio Branco é dantesco. Um turista que venha ao Rio nem imagina.”


