Otegi diz que a independência é incompatível com a violência

17.10.2010 - 11:04 Por Nuno Ribeiro, em Madrid
“A estratégia independentista [em Euskadi] é incompatível com a violência armada”, afirma na edição de hoje do diário "El País", Arnaldo Otegi, dirigente da denominada “esquerda abertzale”, a esquerda radical nacionalista basca.
Otegi, que se encontra detido desde 16 de Outubro de 2009 na prisão de Navalcarnero, nos arredores de Madrid, acusado de tentar reorganizar a direcção da ilegalizada Batasuna, considerada o braço político da ETA, afirma que se oporia a novos atentados dos etarras, mas não os condena.
“A decisão [da ETA] de suspender temporária ou definitivamente a luta armada não deve ou pode estar sujeita a acordos de natureza política com formações políticas”, responde Arnaldo Otegi ao questionário que lhe foi apresentado pelo jornalista John Carlin. Esta é a principal novidade de uma entrevista de 52 perguntas, de que o líder “abertzale” respondeu a 46. Otegi sublinha, ainda, “que a estratégia eficaz para a consecução dos nossos objectivos [a independência do País Basco] deve repousar na nossa capacidade de sedução democrática”. Este conceito é enunciado, por diversas vezes, em várias respostas: “não existe outro caminho para a independência do que as vias pacíficas e democráticas, não consideramos compatível a estratégia independentista com o recurso à violência armada”.
Arnaldo Otegi afirma que esta conclusão é o fruto do debate interno da esquerda “abertzale” e que não implica compromissos prévios, uma tese diferente da retomada no último comunicado da organização terrorista. Este distanciamento não se materializa noutros aspectos. Confrontado com a possibilidade de um novo atentado dos etarras, Otegi afirma que se oporia mas não revela se os “abertzales” o condenariam, condição necessária para que “Batasuna” seja legalizada a tempo de participar nas eleições municipais e forais do País Basco em Maio de 2012. Do mesmo modo, admite que o denominado “imposto revolucionário” exigido pelos etarras a empresários e profissionais liberais basco deve desaparecer, mas não critica tal prática. Por fim, sobre a “kale borroka”, a violência urbana, admite que deve merecer o “repúdio em termos políticos”.
Ao longo das respostas, o líder “abertzale” invoca por diversas vezes a comunidade internacional, numa referência aos 22 signatários da “Declaração de Bruxelas”, na qual aquelas personalidades reclamavam à ETA o fim das hostilidades. Desta forma, Otegi alinha as suas posições com a destes mediadores, arvorando uma dupla legitimidade: a saída do debate interno da esquerda radical basca, que apoiou as suas teses, e a de inspirador e interlocutor da mediação estrangeira. Esta estratégia é uma clara missiva à organização terrorista.
Curiosos são, também, os silêncios. As seis perguntas a que Arnaldo Otegi preferiu não responder. Por duas vezes recusou dar resposta aos motivos porque ainda não condenou o terrorismo. Do mesmo modo, não comenta a estratégia da ETA, nem revela como foi a sua militância nas filas etarras. Por fim, escusa-se a comentar o que mudaria na sua vida e nega-se a revelar o que pensa de Josu Ternera, antigo etarra e ex-deputado no Parlamento basco, em busca e captura por envolvimento num atentado em Saragoça.


