Todos os anos, os Estados Unidos assinalam o dia 19 de Janeiro como o dia de Martin Luther King. Mas nunca a cerimónia de homenagem ao homem que um dia sonhou que ninguém seria julgado pela cor da sua pele fez tanto sentido como hoje. Na véspera de tomar posse, Barack Obama, o primeiro Presidente afro-americano do país, prometeu “renovar a promessa” do sonho americano.
“Hoje, celebramos a vida de um pregador que, há mais de 45 anos, emergiu no nosso Mall, à sombra de Lincoln [o Presidente que aboliu a escravatura] e partilhou o sonho que tinha para a nossa nação”, escreveu Barack Obama num comunicado. “Amanhã, estaremos juntos como um só povo no mesmo local onde o sonho de King ainda ecoa. Ao fazê-lo, reconhecemos que aqui na América, os nossos destinos estão inextrincavelmente ligados. Decidimos que quando caminhamos, temos de caminhar juntos”.
Washington prepara-se para receber uma das maiores multidões da sua história – esperam-se mais de dois milhões de pessoas. Mas antes disso, Obama quis prestar homenagem a Martin Luther King, participando em várias iniciativas destinadas a assinalar o dia que por tradição pertence ao activista dos direitos cívicos. Foi assim que, por momentos, vestiu a pele de pintor e decorador para, rodeado por um batalhão de jornalistas, tornar mais agradável um albergue para sem-abrigo e adolescentes, a Sasha Bruce House. Também visitou feridos de guerra no hospital militar de Walter Reed.
Já no domingo, King tinha estado implicitamente presente quando o próximo Presidente americano se dirigiu aos milhares reunidos no Mall: Obama escolheu o monumento à memória de Lincoln, o seu líder modelo, para falar sobre os desafios que enfrentam os EUA, o mesmo local onde Martin Luther King fez o seu célebre discurso “tenho um sonho”, em 1963, sobre a união racial.
Nas suas palavras de despedida, George W. Bush citou um outro Presidente, Thomas Jefferson, para dizer: “Gosto mais dos sonhos do futuro do que a história do passado”. Já Obama foi buscar um sonho com mais de quatro décadas, que para alguns ficará em parte cumprido amanhã, para falar dos projectos que tem para os Estados Unidos. “Estamos determinados em procurar renovar a promessa deste país, lembrando-nos da lição de King: os sonhos que sonhamos em separado formam apenas um”.
“A sua convicção era que todos os americanos deviam poder partilhar a mesma liberdade e fazer o que querem da sua vida”, adianta no comunicado. “Para fazer honra à sua herança, este dia não é apenas de reflexão, mas de acção”, continua Obama, que pede “aos americanos para se empenharem em melhorar a vida no seu bairro, na sua cidade, no seu país”.
A tomada de posse de Obama, filho de pai queninano (a mãe era do Kansas), é um marco na história racial dos EUA. Mas o antigo senador de Illionois tentou afastar a questão durante a corrida à Casa Branca, para evitar um factor de divisão eleitoral, lembra o diário Washington Post, que na semana passada o entrevistou. O diário refere ainda que agora, pelo contrário, Obama gosta de referir que a sua identidade mestiça pode ser um factor de união e transformação do país: “Há uma geração inteira que vai crescer a ter como garantido que o cargo mais alto no mundo é de um afro-americano”, disse Obama. “É uma coisa radical. Muda a forma como as crianças negras olham para si próprias e como as brancas olham para as negras. E eu não subestimaria a força disto”.
Há outras coisas que parecem estar já a mudar também. Uma sondagem do Post com a ABC News revela que há menos americanos a encarar o racismo como “um grande problema” da sociedade norte-americana – pouco mais de 25 por cento, quando há 12 anos o número era de 54 por cento. Apesar disso, e ainda de acordo com o estudo, parece haver poucas alterações nos últimos seis anos quanto ao número de pessoas que dizem ter sido alvo de descriminação em relação à habitação, emprego ou outras áreas.



