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Birmânia, 1988

Os massacres que o mundo esqueceu

12.10.2007 - 07:10 Por Ana Fonseca Pereira

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Aung San Suu Kyi Aung San Suu Kyi (Apichart Weerawong/Reuters)
Em 1988, como em 2007, os protestos nasceram da crise económica que a Birmânia atravessava, mas depressa assumiram contornos políticos, com milhares de pessoas nas ruas a exigirem democracia, num país dominado há décadas por um regime totalitário. Então, como agora, a repressão militar esmagou os opositores, à custa de um banho de sangue, detenções arbitrárias e tortura. Ao contrário de 2007, em 1988 o mundo demorou dias até conhecer as imagens dos massacres que provocaram três mil mortos.

No final da década de 1980, a Birmânia acumulava décadas de empobrecimento, fruto de uma desastrosa política económica iniciada pelo general Ne Win após o golpe militar de 1962. Intitulada “A Via Birmanesa para o Socialismo”, a política isolacionista do regime nacionalizara toda a economia, permitindo que o maior exportador mundial de arroz ao tempo da independência (1948) registasse agora sérias carências desse cereal. As principais indústrias do país – a exploração de combustíveis, a extracção de pedras preciosas e madeiras exóticas – estavam à beira da paralisia após anos de desinvestimentos.

Números da sorte

A revolta estalou em Setembro de 1987, quando Ne Win, fazendo uso da tradicional superstição nos números, decidiu manter apenas em circulação as notas de 45 e 90 kyats, as únicas divisíveis por nove, o seu número da sorte. A megalómana decisão reduziu a nada as poupanças de centenas de milhares de pessoas e os protestos não tardaram, num país onde durante um quarto de século poucos ousaram desafiar o regime de partido único.

As associações de estudantes – proibidas pelo regime, mas dotadas de uma bem organizada rede clandestina – encabeçaram os protestos, mas, durante meses, poucos os acompanharam até que, em Março de 1988, um estudante que participava numa manifestação junto ao Instituto de Tecnologia foi abatido a tiro. Nos dias que se seguem, a revolta estudantil, a que se juntam outros habitantes de Rangum, aumenta e ouvem-se nas ruas da capital as primeiras reivindicações de democracia.

O regime reage, enviando para as ruas a polícia anti-motim que reprime os protestos com brutalidade e não hesita em abrir fogo contra os manifestantes. O cenário repete-se em Junho, perante um regime incapaz de silenciar os protestos. Em finais de Julho, a revista “Aseanweek” garantia que o número de mortos entre os opositores ultrapassava já uma centena, mas da comunidade internacional surgiam apenas tímidos protestos.

Foi, por isso, com surpresa que o país recebeu, no final de Julho, a notícia de que o general Ne Win – o único líder que o país conhecera em 26 anos – se demitira da liderança do Partido do Programa Socialista da Birmânia (BSPP) e que para o seu lugar fora escolhido Sein Lwin, representante da linha mais dura do regime, que agora prometia reformas económicas e a estabilização do país.

Mas o efeito conseguido foi o oposto. Homem obscuro, a opinião pública conhecia o novo líder apenas como o comandante da polícia anti-motim responsável pela repressão de Março e Junho, recordando-o ainda como o chefe companhia que em 1962, poucos dias após o golpe de Estado, matara 22 estudantes que protestavam na Universidade de Rangum.

“Com a morte de alguns, tudo regressou à calma. Se forem mortos outros dez mil resolvemos o problema de vez”, terá dito Sein Lwin na reunião de emergência do comité central executivo após a repressão de Junho, segundo uma citação da “Aseanweek”. A frase ficou célebre, como também ficaria a ameaça deixada pelo general Ne Win ao anunciar a sua saída de cena: “Quero que todos no país saibam que, se no futuro houver quaisquer desacatos, o Exército dispara para acertar, não para o ar em aviso”.

8-8-88

A confirmação destas palavras, como recordou recentemente a BBC, demoraria poucos dias a ser feita. Ignorando os avisos do regime e a imposição da lei marcial em Rangum, milhares de estudantes, acompanhados por monges budistas nos seus trajes tradicionais, saíram à rua nos primeiros dias de Agosto para contestar a nomeação de Sein Lwin e exigir uma mudança de regime. Outras cidades juntaram-se aos protestos, entre elas Mandalay, a antiga capital imperial e segunda maior metrópole do país, e não tardou até que o regime respondesse com o uso da força, provocando as primeiras vítimas.

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