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Reportagem

Os jovens que dançam para João Paulo II

01.05.2011 - 08:42 Por António Marujo, em Roma

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Jovens em Roma Jovens em Roma (Giampiero Sposito/Reuters)
Juliana Alarcon recolhe os braços em concha junto ao peito, encolhe-se, abre-os de novo para o alto. O movimento repete-se várias vezes. "Diz-me o que é o amor, qual é o teu segredo", canta o refrão da música. "É um movimento que procura transmitir o acto de esconder e, depois, o de abrir", explica ao PÚBLICO Juliana, de 32 anos.

Esta brasileira nascida no Rio de Janeiro vive em Avignon (França) há ano e meio. É missionária da Comunidade Católica Shalom, um grupo fundado há duas décadas no Brasil, com a intenção de usar novos métodos de evangelização, entre os quais a arte e a música.

Juliana integra uma equipa do Shalom que está a fazer uma pequena tournée por vários países da Europa com o espectáculo Abismo. Um musical construído a partir de textos e frases de João Paulo II. Já passaram pela Hungria, França, agora estão em Roma. Em Julho, participarão no Festival de Teatro de Avignon, onde actuam desde há seis anos.

Nesta noite de sexta-feira, estão no Centro Juvenil João Paulo II, na capital italiana. Aqui, pode participar-se num debate, assistir a um espectáculo e, ao mesmo tempo, tomar uma bebida e petiscar.

No Shalom, há 200 pessoas a trabalhar em diferentes espectáculos de música e dança. Só em Fortaleza, no Brasil, o grupo reúne anualmente centenas de milhar de pessoas num festival católico que dura cinco dias. É o maior evento católico artístico do Brasil, dizem.

Juliana explica que a coreografia nasce da sua própria experiência pessoal, sob o olhar e a aprovação do director artístico da comunidade Shalom. "É para dizer que encontrei aquele que o meu coração procurava."

Edie Bethlem, de 31 anos, de Fortaleza, vive em Roma, onde é seminarista. Diz que o espectáculo foi feito a partir da antropologia e espiritualidade de João Paulo II. E que convida a uma "experiência pessoal" com o Papa que, esta manhã, será beatificado pelo seu sucessor, Bento XVI.

"O abismo é a vida das pessoas, que são convidadas a mergulhar na sua vida e a fazer um percurso da sua história em direcção a Deus", acrescenta Amanda Pinheiro, de 31 anos, natural de Belo Horizonte e uma das vozes do espectáculo, que vive como missionária há oito anos em Paris.

Ontem à noite, Juliana, Edie e Amanda estavam, com toda a equipa Shalom, no Circo Massimo, em Roma, para festejar a beatificação de João Paulo II, que esta manhã terá lugar na Praça de São Pedro. Com cerca de 150 mil pessoas, jovens em grande parte.

"João Paulo II era um Papa que convidava a mostrar que Deus está próximo de nós", diz Juliana. E Amanda diz que a inspiração wojtyliana da comunidade Shalom "é quase ontológica": "Foi o Papa João Paulo II que promoveu a ideia da nova evangelização, com novos métodos, e dizendo-nos "faz-te ao largo"."

Mesmo se há quem aponte aspectos críticos ao seu pontificado, Amanda diz que "ninguém pode ter um pontificado perfeito". Mas a santidade convence muita gente e não apenas uma ou duas pessoas, diz. "Num espectáculo como este, fica a beleza do que queremos transmitir ou um erro eventual que cometemos? Se há algum erro, quando olho para o seu pontificado, vejo que ele é um sinal de santidade."

No bar do Centro Juvenil João Paulo II, conversa-se animadamente após o espectáculo. Por vezes, há quem apareça e não seja crente, diz Massimo Camussi, responsável dos eventos culturais do centro, criado em Outubro. Com 36 anos completados na noite de sexta-feira, Massimo pega na sua cerveja e no prato de azeitonas enquanto diz que o espaço é aberto a todos. Mesmo a não crentes: "Por vezes, há jovens que vêm e não acreditam e que falam com os outros, sobre Deus e a Igreja."

Neste centro, a presença de João Paulo II é a do "Papa amigo dos jovens", diz Massimo. Mesmo quando, já nos últimos anos da sua vida, começaram a surgir as denúncias de abusos sexuais de membros do clero. "Ele soube ser forte e dizer que o mal na Igreja é uma dor grande, mas era também a imagem da clareza."

Amanda, a cantora no espectáculo do Shalom, diz que também na sua vida sentiu a presença do Papa Wojtyla: "Ele falou-me da experiência de Deus, mostrou-me como acreditava, disse "aí estou", para apontar ao homem de hoje a presença de Deus."

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