Uma vez mais, não há revelações, mas esta megaoperação tem mais impacto do que as "fugas" sobre o Afeganistão e Iraque, na medida em que mina a credibilidade diplomática americana.
A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, denunciou ontem a divulgação de 250 mil documentos diplomáticos americanos pela organização WikiLeaks como "um ataque à comunidade internacional". Anunciou "medidas enérgicas" contra os autores do "roubo", que "mina os esforços americanos para trabalharem com os outros países".
A terceira megaoperação da WiliLeaks e do seu fundador, Julian Assange, contra os EUA é muito mais embaraçosa para a Administração Obama do que as anteriores, sobre o Afeganistão e o Iraque. Uma vez mais, o que conta não é a substância, mas a divulgação em si mesma. A "fuga" em nada altera a nossa visão sobre a política externa americana, as crises do planeta ou os atritos entre Washington e os seus aliados. Põe em causa, pura e simplesmente, a credibilidade da diplomacia americana, incapaz de guardar os segredos.
Reinava ontem um clima de estupefacção e embaraço, particularmente visível nos Estados do Golfo. No domingo, o MNE italiano, Franco Frattini, qualificara a "fuga" como "o 11 de Setembro da diplomacia". De modo menos gongórico, o MNE sueco, Carl Bildt, declarou: "Isto vai enfraquecer a diplomacia em todo o mundo. Enfraquece a diplomacia em geral e, em primeiro lugar, a diplomacia americana. É algo que tornará o mundo menos seguro. Há necessidade de comunicações confidenciais entre os governos, (...) para gerir as crises e as situações delicadas."
A diplomacia tem duas vertentes, uma pública e outra secreta. "A diplomacia do megafone" só leva a mais conflitos e mais problemas, sei-o por experiência", concluiu Bildt, um veterano da gestão de crises.
Na esmagadora maioria, os documentos divulgados não são secretos, mas reservados ou confidenciais. O aspecto que diverte o público - anedotas ou apreciações cruéis sobre Berlusconi, Kadhafi, Karzai, Sarkozy ou Putin - é irrelevante. As chancelarias estão cheias de "telegramas" com comentários desprimorosos sobre dirigentes estrangeiros e narrações de intrigas palacianas.
"A diplomacia baseia-se na confiança e dizem-se por vezes coisas que não se repetem na presença de jornalistas", resumiu um diplomata russo.
Quebra da confiança
O que fere é a quebra de confiança, sobretudo numa região explosiva e intoxicada como o Médio Oriente. A diplomacia americana deixou de saber guardar segredos.
Quando o rei Abdullah sugere a um diplomata americano que os EUA "cortem a cabeça da serpente" [o nuclear iraniano] não pode tolerar ver as suas palavras expostas na praça pública. Ele usa, como todos os árabes, um dupla linguagem - ora fazendo em segredo aquela sugestão ora avisando Washinton de que um ataque às instalações nucleares iranianas seriam uma catástrofe geopolítica.
Os palestinianos da Fatah e os egípcios ficaram gelados ao ver nos jornais a informação de que Israel teria discutidos com eles - embora sem resultado - a hipótese de colaboração no ataque a Gaza em 2008. Os excertos publicados têm muitas outras histórias que foram reportadas por jornalistas e analistas mas que não podem aparecer em documentos com o selo do Departamento de Estado. Perguntam diplomatas e analistas: doravante, que estrangeiro conversará livremente numa embaixada americana?
Se a bisbilhotice ou certas qualificações pessoais não são relevantes, já o são as manifestações de desconfiança ou hostilidade perante aliados. Ahmet Davutoglu, ministro turco dos Negócios Estrangeiros, é qualificado num documento como um "islamista" que empurra Erdogan para uma política antiocidental. Num outro, a Turquia é acusada de cumplicidade com grupos da Al-Qaeda no Iraque, ao mesmo tempo que outra fonte dá conta de contactos e ajudas de americanos aos curdos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Não são informação a alto nível, mas de origem diplomática.



