Os olhos castanhos de Anousheh ardem por causa do fumo. Ela recupera o fôlego. Mais acima na avenida, entre o ruído indistinto, a polícia antimotim espanca pessoas com bastões e ameaça outras. Irrompem gritos, enquanto homens e mulheres novos fogem à procura de abrigo.
A designer de interiores iraniana, de 29 anos, e o irmão, Babak, vieram de lá, na ponte norte da Alameda África, em Teerão, onde as multidões cantam “Morte ao ditador” – uma massa crescente de centenas de pessoas que protestam contra alegadas fraudes na contagem dos votos na reeleição do Presidente Mahmoud Ahmadinejad.
Quando os milicianos da Ansar e-Hezbollah, barbudos e de bastões em riste, começaram a atacar a multidão que se concentrava, Anousheh e Babak correram rua abaixo, perdendo-se um do outro no meio do caos. Ela procurou-o sem sucesso nas ruas laterais. Pensou em regressar a casa, mas sabe que o seu protector irmão mais velho não sairá dali enquanto não a encontrar.
Imagina-o deitado na rua, em agonia, ou preso numa carrinha a caminho da prisão, talvez a de Evin, com a sua ala de isolamento onde diz que a mãe foi mantida durante sinistros 40 dias, em 2003.
Antes de regressar para o meio da multidão e arriscar ser espancada, decide livrar-se da mochila, que contém uma câmara digital cheia de imagens potencialmente provocatórias de manifestantes a atirar pedras, da carteira carregada de documentos de identificação e dos telemóveis dela e do irmão, com os números de todos os seus contactos. “Podem por favor ficar com isto”, pergunta a um grupo de estranhos sentados num carro a observar a revolta lá em cima. “Preciso de encontrar o meu irmão”.
Os desconcertados passageiros ficam com a mochila, abrem-na rapidamente, para ter a certeza que o conteúdo não é perigoso, e vêem-na regressar para o meio do tumulto, um figura solitária num casaco bege e um leve lenço verde na cabeça.
Com formação de artista gráfica, Anousheh é uma improvável activista política. Vive com os pais. Ficou em casa no dia das eleições, ao contrário dos pais e irmão, que votaram no candidato moderado Mir-Houssein Mousavi, que acusa Ahmadinejad de fraude eleitoral. Mas ela acredita que Mousavi deveria ter ganho. “Não aceito nenhum deles”, diz Anoushehcom voz firme , que pediu para não publicarmos o seu nome de família. “Nenhum deles pode fazer nada”.
O que a move, diz, não é a política, mas um sentimento de injustiça em tudo isto, um forte empenho com o seu país, a sua cidade, o seu bairro, Jordan, que está entre os mais urbanos da capital iraniana.
Jordan foi um alvo dos revolucionários islâmicos que assumiram o controlo do Irão no final da década de 1970, como um símbolo de tudo o que era decadente no deposto regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi. As autoridades renomearam a Alameda Jordan, que devia o seu nome ao pedagogo americano Samuel Jordan, que ali criou uma escola secundária, em Alameda África, num sinal de solidariedade com o Terceiro Mundo. Uma bofetada nas pretensões cosmopolitas do bairro.
Os analistas muitas vezes descrevem um grande fosso no Irão entre os ricos e os pobres, entre os piedosos nas massas populares e a abastada elite ocidentalizada. Mas muitos dizem que a divisão iraniana tem mais a ver com cultura do que com classe, com estilo do que com dinheiro.
Muitos dos comerciantes dos bazares que financiaram os ayatollahs e se tornaram os pilares fundamentalistas das República Islâmica são ricos e muitos dos jovens que têm empregos subalternos nos bairros comerciais ouvem música pop persa feita em Los Angeles e embebedam-se em vodka caseira com os amigos, ao fim-de-semana.
E entre a chamada elite do Norte de Teerão há muita gente de posses modestas: funcionários do governo ou professores que apreciam arte, viajam para o estrangeiro e, acima de tudo, valorizam uma boa educação para os filhos.
Os revolucionários desprezam os que moram no norte de Teerão não pelo seu dinheiro mas pela sua educação, a sua mundanidade e por aquilo que vêem como uma pretensão de misturar o Oriente e Ocidente em vez de se resignarem com as tradições iranianas.


