Sem medicamentos, nem equipamentos, nem instalações para tratar os feridos

Organizações humanitárias no terreno sentem-se impotentes para ajudar as vítimas

14.01.2010 - 09:29 Por Dulce Furtado, com agências

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Pelo menos três hospitais em Port au Prince e arredores estão de tal forma destruídos ou danificados que não é sequer possível usá-los Pelo menos três hospitais em Port au Prince e arredores estão de tal forma destruídos ou danificados que não é sequer possível usá-los (Santita Mitchell/Reuters)
A capital haitiana, com uma segunda noite passada depois do violento terramoto que causou milhares de mortos, permanece hoje sem sinais de operações organizadas de salvamento no terreno: nem nas buscas por sobreviventes sob os escombros nem de remoção dos cadáveres das ruas ou de assistência eficiente aos feridos.

O país mais pobre do hemisfério ocidental não tem recursos próprios para responder a uma calamidade desta envergadura e os operacionais das agências de assistência humanitária no terreno nem sabem o que fazer.

Há um “influxo maciço” de vítimas às clínicas improvisadas, muitas com ferimentos de elevada gravidade, reportava esta manhã (já noite avançada no Haiti) a organização Médecins sans Frontieres quando a ajuda de emergência internacional começa só agora a chegar a conta gotas e se temem surtos de doenças epidémicas.

“Aquilo que estamos a ver são traumas profundos, ferimentos na cabeça, braços e pernas esmagados, ferimentos tão graves que não os conseguimos tratar com os recursos médicos que temos disponíveis neste momento”, apontou o director de operações do braço canadiano da organização, Paul McPhun, citado pela agência noticiosa britânica Reuters. Pelo menos três hospitais em Port au Prince e arredores estão de tal forma destruídos ou danificados que não é sequer possível usá-los, avançou ainda.

O mesmo sentimento de impotência face à severidade das consequências do terramoto é relatado pelo porta-voz da Cruz Vermelha haitiana, Pericles Jean-Baptiste: “Há demasiada gente a precisar de ajuda. E nós não temos medicamentos nem equipamento, nem sequer sacos para guardar os corpos”, explicou expressando a sensação “avassaladora” deste grupo largamente habituado a ligar com as crises humanitárias provocadas por desastres naturais e instabilidade política neste muito pobre país das Caraíbas.

Por toda a capital haitiana, a mesma expressão é repetidamente ouvida aos funcionários das agências humanitárias que já estavam no terreno antes do terramoto de terça-feira: “esmagados” face ao que o terramoto provocou e aquilo que tem de ser feito para recuperar. “É que não sabemos o que fazer”, lamentava um capacete azul chileno, sentado num tractor enquanto olhava o amontoado de casas em ruínas a perder de vista.

As forças de paz no Haiti – que já desempenhavam um papel de manutenção da ordem pública antes mesmo do terramoto – foram mobilizadas para manter a capital sob apertada vigilância, temendo-se a eclosão de motins e violência, depois dos primeiros relatos de pilhagens. Mas também aqui, os destroços de edifícios e pontes tornam impossível chegar a todas as áreas.

“É o pior que já vi. Há tanta devastação numa área concentrada. Vai levar dias ou semanas para conseguir escavar tudo isto”, avaliava o director do programa de assistência a calamidades do Exército de Salvação nos Estados Unidos, Bob Poff, à CNN.

Dezenas de milhares de pessoas permaneceram esta segunda noite nas ruas sem terem casas às quais regressar ou temendo regressar às que se mantiveram de pé com receio de que também ruíssem. Os cânticos e as preces entraram pela noite dentro: “Cantam porque querem que Deus faça alguma coisa. Querem que Deus os ajude. Todos o queremos”, afirmou um dos empregados do Hotel Villa Creole, que perdeu quatro familiares no terramoto. “Precisamos de ajuda internacional... não há nenhuns serviços de emergência, nem comida, nem telefones, nem água, não há nada”, lamentava um rapaz para os jornalistas, sem parar de tentar remover pedaços enormes de pedra dos destroços de casas à força das próprias mãos.

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