Depois de terem “libertado” o Leste da Líbia, os opositores a Khadafi garantiram o controlo de algumas regiões do Oeste, enquanto o regime enviou mercenários para defender a capital. O líder líbio voltou a discursar, para culpar a Al-Qaeda e Bin Laden pelos protestos.
Desta vez a imagem de Khadafi não surgiu nos ecrãs da televisão. O coronel enviou apenas uma mensagem de voz e dirigiu-se sobretudo aos cidadãos de Zauia. Foi ali, já a 50 quilómetros da capital, que se registaram os confrontos mais violentos. Zuara fica a 120 quilómetros a Oeste de Trípoli e já foi tomada pelas forças que se opõem ao regime, e desde a fronteira com o Egipto até Tobruk, a 120 quilómetros, já toda a região está nas mãos dos opositores. Para esta sexta-feira está a ser preparada a “grande marcha sobre Trípoli”.
Misurata, a terceira cidade do país, fica a 200 quilómetros da capital e caiu nas mãos dos revoltosos, tal como já tinha acontecido com Tobruk e Bengasi. Mas a batalha mais difícil foi a de Zauiu, onde os confrontos se prolongaram por cinco horas e resultaram em pelo menos 100 mortos e 400 feridos, segundo a estação de televisão Al Jazira. A cidade tinha sido invadida ao início da manhã pelas forças leais a Khadafi e por mercenários que atiravam para a cabeça ou para o peito, “para matar”, como disse à estação do Qatar um homem que se identifica como Ali.
Foi por causa da situação crítica nesta cidade que Khadafi se dirigiu sobretudo aos seus habitantes. Acusou a Al-Qaeda de ser responsável pelos protestos contra o seu regime que já se prolongam há 11 dias e disse que “Bin Laden é o inimigo que está a manipular o povo".
Se no seu primeiro discurso tinha prometido combater os contestatários “até à última gota de sangue”, agora disse que a Al-Qaeda manipula os jovens ao dar-lhe drogas alucinogénicas, e justificou a revolta com o uso de drogas. “São jovens, têm cerca de 17 anos. E dão-lhes comprimidos à noite, põem-lhes comprimidos nas bebidas, no leite, no café”.
Khadafi disse ainda que o seu poder é apenas moral. “Eu não tenho poder de fazer ou de aplicar as leis. A rainha de Inglaterra não tem essa autoridade e esse é exactamente o meu caso”.
Em Al-Baida, ainda a cerca de 1300 quilómetros de Trípoli, um ex-general que desertou preparava o assalto à capital. “Ordenaram-me que atacasse o povo e eu recusei”, disse Abdel Aziz al-Busta à AFP. “Estamos a tratar de marchar até Trípoli, se Trípoli não chegar a libertar-se por si própria”.
À deserção de militares já se juntou as dos ministros do Interior, da Justiça e da Imigração e vários embaixadores. A situação dos partidários de Khadafi será tão desesperada que o diário espanhol “El País” noticiou que foram executados 17 pilotos da Força Aérea líbia por se terem recusado a bombardear Zauia.
Cerca de 30 mil fugiram à violência
Da Líbia já partiram milhares de pessoas, cerca de 30 mil, segundo a Organização Internacional das Migrações, sobretudo egípcios e tunisinos. A União Europeia está a procurar repatriar os cerca de 6000 europeus que ainda estão na Líbia, o primeiro voo de repatriamento britânico partiu com 150 pessoas a bordo, a França também já retirou da Líbia cerca de 500 cidadãos e a Itália 800. Mais de 25 mil egípcios que viviam na Líbia também já regressaram ao seu país.
Em Bengasi, os 56 portugueses continuam à espera de poder embarcar no ferry grego que os retirará da Líbia.
Não se sabe ao certo quantas pessoas morreram nos confrontos, mas o número inicialmente avançado pela Human Rights Watch já terá sido ultrapassado há muito. O ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Franco Frattini, considerou que uma estimativa de mil mortos é “credível”, e o embaixador francês para os Direitos Humanos, Françoi Zimeray, falou já em 2000 mortos. Um médico do departamento de radiologia do hospital de Bengasi contou à Reuters que, só ali, estavam 200 a 250 mortos.


