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Onze mortos fizeram ontem aumentar os receios de segurança durante o escrutínio

ONU pede aos afegãos para "fazerem História" nas eleições

18.09.2005 - 08:26 Por Sofia Lorena, PÚBLICO

Cerca de 12,5 milhões de afegãos são chamados a escolher hoje os seus representantes parlamentares e locais, nas primeiras eleições legislativas realizadas no Afeganistão desde 1969. O escrutínio acontece quase quatro anos depois da queda dos taliban e assinala o fim da reunificação política promovida desde o fim de 2001 pela ONU, num país ainda longe da estabilidade e reconstrução prometidas na altura.
O escrutínio pode mudar as estruturas de poder no Afeganistão ou legitimar as existentes O escrutínio pode mudar as estruturas de poder no Afeganistão ou legitimar as existentes (AFP)

A fazer crescer os receios de violência no dia das eleições, que os taliban ameaçaram perturbar, pelo menos onze pessoas morreram ontem em ataques, incluindo três polícias na província de Cabul. Peter Erben, da Comissão Eleitoral (ONU e Governo), admitiu ontem "talvez não seja possível abrir algumas mesas de voto por razões de segurança".

A missão da ONU (UNAMA) no país pediu ontem aos afegãos para "fazerem História" e virarem uma página de décadas de guerra. O presidente da Comissão Eleitoral, Bismillah Bismil, encorajou os eleitores a ultrapassarem as tradições políticas locais, dominadas por chefes de tribos e milícias armadas, e elegerem "os melhores representantes" para as suas comunidades.

Descritas como as mais importantes de sempre, estas são também as eleições de todos os riscos. "Este voto tem o potencial para mudar verdadeiramente as estruturas de poder ao nível local e, por isso, ameaçam o poder dos comandantes e líderes locais. Alguns poderão utilizar a intimidação ou violência se sentirem que a sua posição está ameaçada", avisa num relatório a AREU (Afghanistan Research and Evaluation Unit), think-tank independente de acompanhamento do processo político.

Na prática, as eleições vão legitimar os domínios tradicionais que a nível local concentram já o poder e o dinheiro. Grupos armados e "senhores da guerra e responsáveis por abusos de direitos humanos" que deverão agora dominar o espaço político afegão, como lamentou a Human Rights Watch (HRW), num relatório divulgado quinta-feira. Aqui entram antigos mujahedin responsáveis por atrocidades no conflito civil dos primeiros anos da década de 1990, mas também comunistas que os primeiros ajudaram a expulsar do poder, ou taliban contra os quais lutaram depois.

A HRW responsabiliza o Governo e a sua política de reconciliação a qualquer custo, bem como os seus parceiros internacionais, pela "atmosfera de medo" que rodeará o voto. Segundo uma estimativa da ONU, não divulgada mas citada pela AFP, 16 por cento dos 5800 candidatos, ou seja mais de 900 pessoas, têm ligações a grupos armados. "O processo de selecção esteve longe de excluir todos os candidatos culpados de violações de direitos humanos", admitiu o chefe da UNAMA, Jean Arnault

Um dos progressos em relação às eleições presidenciais, onde houve alegações de fraude, é o aumento significativo do número de observadores: há 8000 monitores independentes, incluindo 500 internacionais (100 da União Europeia), que não vão estar em todo o país, por razões de segurança.

Os meses que antecederam o escrutínio foram o período mais violento desde o fim do regime dos estudantes teologia (mais de 1200 mortos até agora) e os afegãos estão conformados com a presença militar estrangeira (20 mil tropas numa coligação liderada pelos EUA e 10 mil na força de paz da NATO), esperando que as eleições não signifiquem nem a sua partida nem o fim da ajuda financeira internacional. Mais de 50 por cento da população ainda vive abaixo do nível da pobreza e o Banco Mundial estima que as infra-estruturas de base (rede eléctrica ou grandes estradas) levarão anos a ser erguidas.

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