A organização mundial de Saúde decidiu elevar o nível de alerta pandémico de 3 para 4, numa escala de seis. Significa isto que houve “uma subida significativa” do risco de uma epidemia global causada pelo novo tipo de vírus da gripe suína.
“O vírus está demasiado disseminado para que se possam aplicar medidas de contenção”, disse Keiju Fukuda, assistente temporário da directora-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) para lidar com a resposta a esta gripe. O que não é admirar, segundo Laurie Garret, especialista em saúde global do “think-tank” Council on Foreign Relations.
Dos Estados Unidos estão a vir acusações de que o México demorou muito tempo a dar o alerta, quando havia um número elevado de casos de gripe desde meados de Março. Mas Laurie Garret diz que a questão deve ser posta ao contrário. “Na verdade, o primeiro caso de gripe suína em humanos na América do Norte registou-se nos Estados Unidos, em Setembro, no Texas”, disse, numa conferência de imprensa telefónica. “Podia perguntar aos EUA por que é que não deram o alerta antes”.
Por outro lado, as autoridades de saúde pública norte-americanas notaram o aparecimento de um certo número de casos daquilo a que chamaram “o vírus da gripe voador”, ou seja, gripes contraídas em voos entre os EUA e o México. Isso também não levou a accionar os alertas. “Basicamente, só se reparou que havia algo de anormal mesmo quando a gripe chegou à Cidade do México, e começou a infectar grupos grandes de pessoas, em escolas e outros espaços delimitados”, comentou Garrett.
Mas a situação pode tornar-se ainda mais grave, e o vírus tornar-se mais perigoso, como a OMS tem alertado, embora sem avançar muitos pormenores sobre como isso poderia acontecer O maior sinal de alarme é o alerta dos Centros de Controlo e Prevenção das Doenças dos EUA emitido em Dezembro: um tipo de vírus da gripe H1N1 (não o que está a causar estes casos de doença) tornou-se resistente ao Tamiflu, o medicamento de ponta contra o vírus da gripe, aquele que todos os países foram encorajados a fazer “stocks”, para responder a uma epidemia grave. “Se este vírus da gripe suína se recombinasse com esta estirpe resistente, o nível de alerta teria de subir”, comentou Garrett.
A decisão de elevar o nível de alerta pandémico não é tornada de ânimo leve, sublinhou a investigadora, autora do livro “The Coming Plague” (“A Próxima Praga”, num título traduzido à letra). “Subir o nível de alerta geral implica que todos os países tomem imediatamente uma série de medidas, que são sem dúvida caras. Sobretudo para os países mais pobres, é uma decisão difícil, ainda por cima num período de recessão.”
Ironias imunitárias
A preocupação aumenta ainda no caso dos países do Hemisfério Sul, pois está a começar a época da gripe lá. A chegada a África seria especialmente preocupante. “Até agora, tem atingido sobretudo pessoas jovens, até aos 45 anos, embora não saibamos por quê. Mas que efeito teria numa população onde o HIV está tão presente como em alguns países africanos, em que 20 por cento das pessoas são seropositivas e têm o seu sistema imunitário comprometido? Isto não é uma pergunta de retórica”, sublinhou.
Na verdade, ninguém sabe mesmo o que se poderia passar. Por uma ironia biológica, as pessoas imunodeficientes até poderiam ficar mais protegidas, pois o seu sistema imunitário não seria capaz de montar a tempestade de resposta à invasão do invasor do organismo. Na gripe de 1918, que matou entre 40 e 100 milhões de pessoas (com uma taxa de mortalidade que não deve ter passado muito dos dois por cento), as pessoas acabavam por sucumbir a essa tempestade imunitária, e o mesmo se passou com a pneumonia atípica, em 2002/2003.
“Face a um vírus que reconhece como completamente novo, algo que nunca enfrentou, o sistema imunitário das pessoas jovens e saudáveis desencadeia uma intensa resposta, produzindo citoquinas, que produzem uma cascata de efeitos químicos que levam a que a pessoa se afogue nos seus próprios fluidos”, relatou Garrett. “Se o sistema imunitário não funcionar tão bem, a pessoa não terá uma resposta deste tipo à infecção”, o que pode até salvá-la.



