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Julgamento suspenso

Omar passou um terço da vida em Guantánamo e estava à espera que Obama o tirasse de lá

21.01.2009 - 16:51 Por Sofia Lorena

Barack Obama avisara que encerrar Guantánamo não seria fácil, mas já se esperava que a ordem para o fazer fosse das primeiras da sua presidência. A urgência em agir para cortar com o legado da Administração Bush tinha razões práticas: se Obama não fizesse nada para travar os processos nas comissões militares da base de Cuba, Omar Khadr começaria a ser julgado segunda-feira. A suspensão do julgamento deste canadiano foi a primeira consequência da primeira decisão de Obama: parar durante 120 dias todos os processos que decorrem em Guantánamo para que estes sejam revistos.
Omar Khadr Omar Khadr (DR)

Khadr tem 22 anos e foi capturado no Afeganistão em 2002, aos 15 anos. Para além da idade, há outro aspecto que o distingue - é há muito o único ocidental na prisão. Se o julgamento avançasse, a Administração Obama daria os primeiros passos enquanto os Estados Unidos julgavam uma criança-soldado, pela primeira vez na sua história.

Há dúvidas sobre o que Omar fez e muitas alegações de maus tratos. Acusado de um crime grave - a morte de um soldado americano - foi desde o início alvo de duros interrogatórios, concluiu a canadiana Michelle Shephard na investigação para os seus artigos no “Toronto Star” e para o livro “Guantanamo's Child”. Esses interrogatórios aconteceram em Guantánamo e antes, na prisão afegã de Bagram, onde chegou gravemente ferido.

Em Bagram, a sua reputação precedeu-o. "Os guardas disseram que tinham acabado de trazer este miúdo extremamente hostil; que um veículo cheio de americanos tinha passado a distribuir ajuda e que ele tinha atirado uma granada", contou a Shephard Moazzam Begg, um dos britânicos libertados pelos EUA em 2005, que em Cabul partilhou a cela com Khadr. Como Begg descobriria depressa, "havia o mito Khadr e havia a pessoa", um miúdo assustado e reservado.

A história da granada também tinha mais do que uma versão: um grupo de combatentes barricado num edifício resistiu até um raide aéreo o destruir. Nos 90 segundos seguintes, alguém lançou a granada que matou um soldado e o Pentágono concluiu que só pode ter sido Omar, pois mais ninguém sobreviveu. Afinal, soube-se em 2007, um dos soldados diz que ainda disparou contra duas pessoas, matando uma e deixando Omar com dois buracos no peito.

O Pentágono também diz que Omar estava ali para combater - ele e a sua família garantem que o pai o enviara como intérprete por falar pashtun.

Crianças-soldado são vítimas

Estas são as dúvidas sobre o que aconteceu, mas a primeira discussão, defendem os advogados de Omar e muitos que se têm juntado aos seus apelos, é que Omar nunca deveria ter sido preso em Bagram nem encarcerado em Guantánamo, onde viveu quase um terço da sua vida. E isso depois de ter crescido entre os orfanatos que o pai geriu no Paquistão, campos de treino da Al-Qaeda no Afeganistão, e temporadas no Canadá, onde gostava de ver desenhos animados e de brincar com um primo.

“Todas as pessoas que estiveram em posições de autoridade sobre ele abusaram da sua confiança. Aqui podem incluir-se os pais e avós, os associados no Afeganistão, outros detidos no Campo Delta [Guantánamo] e os militares dos EUA”, escreveu Jim Gold, um dos responsáveis canadianos que o interrogaram em Guantánamo, em 2003, num relatório que a justiça canadiana obrigou Otava a divulgar, o ano passado.

Radhika Coomaraswamy, representante da ONU para as crianças em conflitos armados, avançou com um protesto contra a detenção de Khadr, avisando que mina as protecções do Protocolo Opcional à Convenção dos Direitos da Criança para o Envolvimento em Conflitos Armados. Os EUA e o Canadá são signatários, mas Washington defende que o protocolo proíbe os EUA de usar crianças-soldado, não de as julgar. Tribunais na Serra Leoa, Ruanda, Bósnia ou Camboja decidiram não julgar crianças, descrevendo-as como vítimas.

O Canadá ainda não o quer

Ao contrário do que fizeram com os seus cidadãos a França, o Reino Unido ou a Austrália, o Canadá nunca levantou a questão do repatriamento de Omar e o primeiro-ministro, Stephen Harper, continua a recusar fazê-lo.

Segundo uma sondagem de Janeiro, 40 por cento dos canadianos concordam que Omar deve ser repatriado, 38 por cento dizem que deve permanecer em Guantánamo. Mesmo assim, disse ao PÚBLICO Audrey Mcklin, da Universidade de Toronto, "há hoje muito mais apoio ao seu repatriamento do que havia há dois anos". Em quase todos os jornais já se escreveu a frase “Tragam-no para casa”, mesmo publicações de direita como o “National Post”, mais próximas da linha dura de combate ao terrorismo de Harper.

Mcklin não encontra "uma boa resposta" para o facto de Khadr ser o último ocidental de Guantánamo, "especialmente porque só tinha 15 anos quando foi capturado". Mas lembra que a família já tinha "sido fonte de embaraço político" para o Governo canadiano, nos anos 1990, quando Otava intercedeu a favor do pai, Ahmed, preso no Paquistão, antes de serem conhecidos os seus laços à Al-Qaeda. Ahmed Khadr foi entretanto morto num raide no Paquistão.

Michael Byers, canadiano especialista em política e lei internacional, diz que Harper sempre quis aparecer ao lado de George W. Bush, mostrando apoio a todas as suas políticas. Jennifer Daskal, advogada da Human Rights Watch, ainda espera que Harper dê o primeiro passo e aproveite a chegada de Obama para pedir a extradição.



Texto publicado na edição impressa de 17 de Janeiro e actualizado hoje às 16h54

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Comentário + votado

Terroristas!!!!!

Um dos "inocentes" libertado de Guantanamo, já está no Iémen a liderar um grupo da Al-Qaida. ...

Milhazes

26.01.2009 03:15

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