A Organização de Libertação da Palestina (OLP) apelou hoje ao Hamas para que modifique o seu programa de Governo, que não reconhece a supremacia dos nacionalistas como porta-vozes da causa palestiniana. O movimento integrista já rejeitou essa exigência.
O Comité Executivo da OLP, que reúne todos os movimentos nacionalistas palestinianos e que durante anos liderou os contactos internacionais, reuniu-se hoje em Ramallah para examinar o programa apresentado pelo Hamas, vencedor das legislativas de 25 de Janeiro. O movimento radical, que não integra a OLP, recusa-se a reconhecer a organização como "única representante legítima" do povo palestiniano, o que constitui o principal foco de tensão entre integristas e nacionalistas.
"O Comité Executivo apela ao Hamas que modifique o seu programa político", declarou Tayssir Khaled, porta-voz da organização, no final do encontro, presidido por Mahmoud Abbas, simultaneamente líder da organização e presidente da Autoridade Palestiniana.
"O Presidente Abbas vai enviar uma carta ao Hamas a explicar a sua posição em relação ao programa, que é inaceitável. O Governo do Hamas deve revê-lo e apresentar um novo programa que tenha em conta os interesses do povo palestiniano", acrescentou.
"O Hamas não é uma alternativa à OLP", sublinhou Zakaria Al-Agha, outro membro do Comité Executivo, enquanto o primeiro-ministro cessante, Ahmad Qorei, disse ser "inaceitável que [o Hamas] não reconheça a supremacia da OLP".
Tentando serenar os ânimos, Abbas declarou, no final da reunião, que "não existe qualquer crise constitucional" e que o Governo do Hamas deverá tomar posse em breve. "Há algumas questões essenciais como o facto da OLP ser a primeira referência para a Autoridade Palestiniana e isso deve constar claramente no programa de Governo", afirmou.
Abbas lembrou que "a Autoridade Palestiniana nasceu da OLP", já que foi a organização nacionalista quem, após décadas de resistência, assinou em 1993 os acordos de paz de Oslo, que permitiram a criação de uma entidade autónoma, com controlo sobre os territórios palestinianos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia.
A reacção do Hamas não se fez esperar. Pouco depois de terminada a reunião, o porta-voz do movimento rejeitou as exigências dos nacionalistas. "Esta decisão é inaceitável e ilegal. O Conselho Legislativo Palestiniano [Parlamento] é o único habilitado" a pronunciar-se sobre o programa de Governo, afirmou Sami Abu Zuhri.
Mais do que uma luta entre facções, o reconhecimento da OLP como porta-voz dos palestinianos poderá ser determinante para a continuação das negociações de paz, já que tanto Israel como os EUA se recusam a dialogar com o Hamas, organização que classificam de terrorista. Também a União Europeia recusa contactos directos com os integristas enquanto estes não renunciarem à luta armada e não reconhecerem a existência do Estado de Israel.



