O “grande discurso” prometido pelo Presidente dos EUA ao mundo islâmico não será feito em Ancara ou Istambul. Mas os muçulmanos em todo o mundo estarão atentos ao que Obama disser hoje e amanhã na Turquia.
Nunca nenhum Presidente dos Estados Unidos visitara a Turquia em início de mandato. Ao fazê-lo, no âmbito de uma ambiciosa digressão que incluiu reuniões do G20, da NATO e da UE, Barack Obama exalta a importância da parceria estratégica com um país muçulmano que tem o segundo maior Exército da Aliança Atlântica, é a sexta maior economia da Europa e faz fronteira com o Irão, o Iraque a Síria.
Era urgente reparar quase seis décadas de laços bilaterais. Uma das últimas sondagens divulgadas este ano mostra que 44 por cento dos turcos olham para os EUA como “a maior ameaça” ao seu país e que só 5 por cento vêem a América como o mais importante amigo da Turquia.
“Perante estes dados, a visita de Obama é muito importante, porque a maior parte da retórica antiamericana se devia às políticas da Administração Bush, como a guerra global ao terror e, em particular, a invasão do Iraque”, disse ao PÚBLICO Bulent Aliriza, director do Projecto Turquia do Center for Strategic and International Studies (CSIS), em Washington.
“Com um novo Presidente cujo nome não é George W. Bush, e que está a rever a guerra ao terrorismo, limitando-a e não expandindo-a, há uma grande oportunidade de melhorar as relações americano-turcas”, salientou Aliriza, um antigo diplomata, formado em Oxford e comentador regular do New York Times, Washington Post, CNN e BBC, entre outros. “Obama está em vantagem só por o seu nome não ser Bush”, acrescentou Aliriza numa entrevista telefónica.
“Há um elo comum que liga a viagem de Obama”, destaca Aliriza. Antes da chegada a Ancara, “ele já fez três escalas multilaterais: no G20, de que a Turquia é membro, país emergente muito afectado pela crise económica; a reunião da NATO, que permitirá à Turquia contribuir mais do que outros para estabilizar o Afeganistão; e uma reunião da União Europeia, de que a Turquia é o mais importante candidato à adesão.”
Além de ser um “membro da comunidade ocidental”, a Turquia é também o primeiro país muçulmano que Obama visita. A Casa Branca deixou bem claro que o “grande discurso ao mundo muçulmano” prometido para os primeiros cem dias da presidência não será feito na Turquia, mas Aliriza observou: “Ele não precisa de ir à Indonésia fazer esse grande discurso, porque o que vai dizer, em Ancara ou em Istambul, será ouvido com muita atenção pelos muçulmanos de todo o mundo”.
“É muito significativo que Obama faça esta visita no contexto de uma grande – e primeira – viagem pela Europa”, declarou, por seu turno, Ian O. Lesser, investigador do German Marshall Fund dos Estados Unidos. Numa entrevista telefónica ao PÚBLICO, notou: “A nossa conversa seria completamente diferente se esta visita fosse a última etapa de um périplo pela Arábia Saudita, pelo Egipto e pelo Iraque”.
Realçar o carácter transatlântico e europeu da Turquia não significa, para Lesser, que Obama queira esvaziar o papel que Ancara ambiciona desempenhar nos antigos domínios do Império Otomano ou Sublime Porta. “É compatível ser um aliado no Médio Oriente e um parceiro nas instituições internacionais”.
Genocídio arménio
Entre os temas dominantes da agenda de Obama na Turquia, Lesser e Aliriza enfatizam o Iraque pós-retirada americana, o “problema Afeganistão-Paquistão”, a aliança Síria-Irão e a sensível questão do genocídio arménio.
Para os dois analistas, a questão arménia colocará algumas dificuldades a um Presidente que, durante a sua campanha eleitoral, prometeu apoiar a resolução que, este mês, será apresentada ao Congresso dos EUA e que qualifica como “genocídio” as mortes de milhares de arménios sob os otomanos, durante e depois da I Guerra Mundial.



