Obama nomeia chefes da espionagem e garante que os EUA "não vão torturar"

09.01.2009 - 17:07 Por PÚBLICO, Agências
Barack Obama nomeou hoje dois “outsiders” para os principais cargos da espionagem norte-americana: Leon Panetta, antigo chefe de gabinete de Bill Clinton, será o próximo director da CIA e o almirante Dennis Blair vai chefiar o Conselho Nacional de Informação, entidade que coordena os serviços secretos do país. O Presidente eleito aproveitou a ocasião para reafirmar que, sob a sua tutela, “os EUA vão respeitar a Convenção de Genebra” e “não vão torturar” detidos.
“Fui claro durante a campanha e fui-o durante o período de transição: sob a minha Administração, os Estados Unidos não vão torturar. Vamos respeitar a Convenção de Genebra e manter os nossos mais elevados ideais”, declarou o Presidente eleito, na apresentação dos novos dois responsáveis, que definiu como “funcionários de uma integridade incontestável, grande experiência e o pragmatismo necessários a estes tempos perigosos”.
Tanto Panetta, como Blair – um almirante na reserva e antigo comandante militar no Pacífico – não pertencem às fileiras dos serviços secretos, mas Obama justifica a sua escolha com a necessidade de melhorar a reputação da espionagem americana, manchada por escândalos de maus tratos a prisioneiros, denúncias de tortura aos suspeitos de terrorismo e escutas extrajudiciais a cidadãos norte-americanos.
“Para estarmos verdadeiramente seguros, temos que defender os nossos valores tão atentamente como protegemos a nossa segurança, sem excepções”, sublinhou o Presidente eleito que esta semana defendera que os novos dirigentes devem pôr fim a práticas “que mancharam a imagem das agências e da política externa americana”.
Além do novo director da CIA, a agência responsável pela recolha de informações a nível externo, e do novo patrão das secretas, cargo criado após os atentados de 11 de Setembro, Obama nomeou ainda John Brennan, um veterano da CIA, como seu conselheiro para as questões de contraterrorismo e segurança interna – uma nomeação que, ao contrário das restantes não precisa de ser confirmada pelo Senado.
Escolhas de Obama contestadas
As escolhas de Obama têm vindo a gerar polémica desde que foram avançadas pela imprensa, quatro dias antes do anúncio oficial.
A opção por Panetta, um antigo congressista e ex-chefe de gabinete do Presidente Bill Clinton, causou surpresa em Washington, e foi logo criticada, dada a sua falta de experiência na área dos serviços secretos. Um argumento que Obama faz questão de contrariar. “Ele [Panetta] lidou com espionagem diariamente e ao mais alto nível, e sempre demonstrou um vivo e acertado julgamento e a mais completa integridade”, disse.
O almirante Dennis Blair, que liderou o Comando dos EUA no Pacífico, tem no seu currículo uma controversa associação ao regime indonésio após os massacres de Timor-Leste, que estará sob o escrutínio dos senadores nas audiências de confirmação.
O senador democrata Ron Wyden já fez saber que pretende questionar o almirante sobre o seu papel na região. Por causa dos massacres, em 1999, o Congresso decidiu cortar as ligações militares com Jacarta, mas Blair argumentou que estas deviam ser reatadas e chegou a reunir-se com responsáveis do exército indonésio.
“Tenho algumas perguntas sobre o que aconteceu nesses tempos, e quero saber qual foi o seu envolvimento. Não estou a fazer nenhuma acusação, simplesmente a fazer perguntas”, disse Wyden.
Enquanto responsável máximo pelos serviços de inteligência, Dennis Blair terá a responsabilidade de supervisionar as 16 agências de serviços secretos de informações. A sua prioridade será restaurar a credibilidade e reputação daquela comunidade, que nos últimos anos foi denunciada por torturar prisioneiros e fazer escutas ilegais a cidadãos norte-americanos.
Brennan, que chegou a ser considerado para o cargo de director da CIA, retirou o seu nome da lista de possíveis escolhas para evitar polémicas no processo de confirmação: as suas ligações àquela agência, e especialmente aquela que era percebida como a sua concordância com as políticas sobre o tratamento de prisioneiros, mereceram duras críticas.
Rita Siza, em Washington


